quarta-feira, 16 de junho de 2010




















Photo: Ernesto Rodrigues with Paulo Curado


Quanto maior for a memória do ouvinte, mais vasto é o vasto acervo de memórias do jazz e da música improvisada reconhecíveis no nomadismo da Variable Geometry Orchestra (VGO), todo um amplo espectro de sinais de música moderna, actuais e de outros tempos, que lhe servem de inspiração e motor interno. Sob a direcção de Ernesto Rodrigues, a VGO, actuando um vez mais no palco da Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, pôs em prática o seu trabalho de modelagem sobre massa sonora compacta e homogénea, entrecortada por breves solos, pontos de partida para “conversas” no interior de pequenos conjuntos, secções organizadas como naipes circunstancialmente subdirigidos por Patrick Brennan, à direita, e Alípio C. Neto, do lado esquerdo. Jogos interactivos de improvisação, linhas melódicas, permutações, ensaios de contraponto, simultaneidade, provocação e resposta, contraste e aproximação, grito, transe, imprecação, dança caótica de cordas, teclas, sopros e electrónica, batidos por fogachos, labaredas rítmicas, explosões de címbalos, ou simplesmente dispostos sobre as brasas de percussão. Preparações alternando entre a ocasional chuva de meteoritos sobre os telhados da vizinhança e o bombardeamento sonoro em larga escala, acentuado pelo uso de notas longas, exacerbação súbita, paroxismo transformado em drones fantasmagóricos que se fundem em extensões de magma sonoro, a perder de vista. Apostado em aprofundar o trabalho sobre variações dinâmicas – uma das vias de orientação a seguir na incessante busca de diferentes soluções para este puzzle gigantesco –, a orquestra consegue ser tão eficaz na acção devastadora do seu poderio sonoro, como na subtil e delicada enunciação, emergente da estrutura massiva e dos profundos alicerces em que se estrutura o vasto campo de experimentação e de improvisação colectiva. Com a VGO a viagem é sempre longa e sem escala. Em cima do palco, mais de 30 músicos pintaram a manta e detonaram cargas de profundidade em longos crescendos de intensidade, curvas de frequências que estimulam neurónios e insuspeitas secções da alma, sem no entanto revelar o núcleo essencial do segredo que colectivamente transportam e que a ninguém individualmente é dado o poder de conhecer. Qual nave que se projecta no espaço, que visa ir cada vez mais longe na exploração do desconhecido, a Variable Geometry Orchestra, ultrapassando os seus próprios limites musicais e os obstáculos físicos do meio que a suporta, permite ver e sentir o mistério que está para lá de um ponto qualquer. Não se sabe como, nem para onde se vai a seguir; mas o que quer que seja que lá está emite sinais de vida.
Livre, selvagem e surpreendente.
Eduardo Chagas (Jazz e Arredores)

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