quinta-feira, 21 de junho de 2018

Trading Places at the Suoni: Vancouver-Lisbon-Montreal (Encounters of the Free Kind)


Cross-pollination in the arts is always a good thing. An example of this is when musicians from different geographical locations get together to share their experiences in a concert setting. This is especially exciting in improvised music, because you never know what might happen. Such was the case on two different nights at the Suoni per il popolo festival last week.
June 12 featured a Lisbon-Montreal encounter at the Casa del popolo, which was the first part of an evening devoted to daring improvisational music (the second part featured Norwegian bassist Ingebrigt Haker-Falten’s Texas band The Young Mothers). Heard three days later was the second installment of Trading Places, a collaboration between Montreal and Vancouver improvisers (which was followed by a solo set by drummer Will Guthrie). First instituted in 2016, this initiative allows two musicians from the Canadian West Coast to spend time in Montreal and play with locals during the festival’s run, including an informal workshop setting. In return two Montreal musicians travel West later in the year to engage in similar activities.
The June 12 Lisbon-Montreal encounter for its part was a concise set clocking in around the 45 minute mark. It paired the musical and life partners Karoline Leblanc on piano and drummer-percussionist Paulo J. Ferreira Lopes, with two of the latter’s Portuguese compatriots violist Ernesto Rodrigues, and guitarist Luis Lopes (no relation). As a unit, this quartet engaged in inspired and unscripted free-form improvisation.
The pianist’s flow of cascading chords and melodies was the thread that seemed to tie the music together, as Ferreira Lopes’ percussive washes seemed to ride in tandem with her energetic ideas. Guitarist Lopes, for his part, coaxed intriguing sounds and noises from his instrument, at times fingering the strings high up the neck, near the pickups, to get unusual harmonics and plucking effects, or scrapping a violin bow or a tin can across the strings. Violist Rodrigues wisely sawed away at his instrument, spinning a series of searing lines in this collective sketch that was at times jaw-dropping, the musicians feeding off each other in a sustained flow of inspiration. [...]  Paul Serralheiro (La Scena Musicale)

terça-feira, 3 de abril de 2018

IKB na ZDB



Do seio da mui prolífera editora Creative Sources surge em 2012 o ensemble IKB, em homenagem a Yves Klein. Embora de formação variável, há um óbvio sentido de coletivo neste ensemble. Para além da união necessária para se fazer cooperativamente música em formações maiores, aqui o apagamento de ego é extremado para resultar na estética reducionista e concreta que caracteriza este grupo. Impera um exercício de nudez decíbel possível graças à contenção, atenção, respeito e escuta profunda partilhada em conjunto entre músicos e audiência. Um quase silêncio de uma musicalidade extrema. Bernardo Álvares

quinta-feira, 8 de março de 2018

Espaço::Silêncio::Nota




photo: João Ricardo



O ranger das cadeiras e os automóveis a passar na rua faziam parte da música. Dois russos e dois portugueses apresentaram na Sonoscopia o seu entendimento da improvisação reducionista, indo do extremo da quietude até ao “feedback” controlado.
[...] Após um curto intervalo para que o duo português se instalasse, o reducionismo continuou. Desta vez, os sons viscerais e da rua não se impuseram. O programa foi mais preenchido e estimulante e muito menos tenso. O jogo proporcionado pelos dois saxofones (Belorukov e Nuno Torres) foi bastante interessante.
As combinações tímbricas, a exploração harmónica, o borbulhar, o atrito do movimento circular de uma lata de refrigerante sobre a campânula do saxofone, as dissonâncias e flutuações, pontuaram sobre os “drones” electrónicos, contrastando com a subtileza da viola de Rodrigues. Os sons mais agrestes com que Ernesto Rodrigues atacou o início do concerto (usou um papel ou folha seca e amassou-a no tampo da viola) ou os harmónicos suscitados com o arco, nunca foram estridentes. Também ele “jogou” com as suas ferramentas e soluções, sendo que as cordas foram só uma parte desse jogo. O corpo da viola foi percutido e tocado com todo o arco (crina, parafuso e vara), e pôde ouvir-se bem a ressonância da madeira.
Depois de uma primeira peça, o quarteto brindou a audiência com uma segunda actuação. O estado meditativo (ou contemplativo) do público foi atirado para o prolongamento. João Ricardo (Jazz.pt)

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

LE LISBON STRING TRIO LANCE LES INVITATIONS



Que le Portugal soit terre de musiques improvisées, c’est devenu une habitude. Que la scène lisboète ne soit pas avare de cordes de talents, de la guitare de Luis Lopes au violon de Carlos Zingaro, c’est un constat qui ne prend guère de temps pour être validé. Singulièrement grâce à l’insatiable travail d’Ernesto Rodrigues, acteur lusitanien incontournable de l’archet qui anime à l’alto depuis quelques années le Lisbon String Trio (LST).

Ses compagnons sont immuables : Miguel Mira au violoncelle et Alvaro Rosso à la contrebasse. Les compositions instantanées et collectives de l’orchestre s’inscrivent souvent dans une lecture très contemporaine - une expression que Rodrigues côtoie voire tutoie depuis des décennies.
Ernesto Rodrigues n’est pas le plus connu des musiciens de la péninsule ibérique, du moins dans l’Hexagone. Enregistreur infatigable, fondateur du label Creative Sources qui nous offre des pépites [1], il s’est saisi du format dématérialisé pour illustrer ses rencontres, tisser des liens et témoigner de manière régulière de ce qu’il faut considérer comme un constant work in progress.

En cinq albums assez courts, dont un en trio simple, le fougueux Proletariat, le LST se lance tous azimuts à la rencontre des improvisateurs de tous continents sur une courte période, entre mars et mai 2017. Il ne s’agit pas du plaisir de l’infinitude ; c’est au contraire une volonté de remise en question ou en danger, d’apprendre et d’assimiler les univers et les langues des autres. Ainsi sa rencontre avec la pianiste québécoise Karoline Leblanc dans Liames, qui définit l’intensité tout en conservant de la distance. En accompagnant le piano dans son rôle de quatrième instrument à cordes, travaillé à même ses entrailles, le trio convie Leblanc à étendre son jeu tout en s’intégrant parfaitement dans le dédale d’archets que bornent Mira et Rosso.

On trouvera semblable relation avec l’incroyable tromboniste italien Carlo Mascolo dans Intonarumori. Ce n’est pas l’urgence qui est ici convoquée mais une sorte de tension, proche du mouvement permanent, où le trombone préparé prolonge à la fois les rebonds de l’archet et la glisse du crin sur les cordes. Le souffle, totalement aspiré par la dynamique du trio augmenté, se transmute en un brouillard étrange où le moindre événement se comporte comme une entaille, un cahot dans une dynamique collective très dense et bruitiste où le silence est comme la surface d’un plan d’eau, qui se ride et se trouble à la moindre poussière.

La ressemblance est frappante avec l’étonnant moment capté en compagnie du clarinettiste Luiz Rocha, qui introduit presque naturellement cette Télépathie où le LST invite Étienne Brunet - ancien élève de Steve Lacy et figure du free jazz depuis 30 ans - aux côtés de Daunik Lazro ou Jac Berrocal. Une musique où les timbres et l’espace prennent néanmoins une grande importance, l’alto de Rodrigues jouant à se fondre avec le saxophone. Une direction que K’ampokol che K’aay, création très contemporaine en compagnie du clarinettiste et libre-penseur étasunien Blaise Siwula, attaque à rebours, loin de la concorde et à proximité du disque de Leblanc, avec du tumulte et des brisures nettes. Un travail qui remet le LST dans une position prismatique vis-à-vis de la musique improvisée : celle qui éclaire des recoins parfois délaissés et pourtant luxuriants. Franpi Barriaux (Citizen Jazz)

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Creative Sources Fest XI - Improvisar colectivamente



photo by Cláudio Rêgo

O mês de Novembro trouxe consigo mais uma edição – a 11ª – do festival promovido pela editora Creative Sources, pela primeira vez com cinco dias de duração. A jazz.pt esteve presente em alguns dos concertos e estes colocaram algumas questões que no futuro seria importante colocar em debate (foto acima: String Theory).

Com a mesma longevidade da Clean Feed (o seu primeiro disco data de 2001) e semelhante número de títulos (vai a caminho dos 500), a Creative Sources teve no passado mês de Novembro a 11ª edição do seu festival, este ano com cinco dias de duração, indo dos três aos cinco concertos em cada sessão. Uma das mais importantes editoras do circuito internacional da improvisação reducionista, mas com um catálogo que a esse tipo de abordagem vem juntando registos de outras áreas, indo do jazz criativo à música electroacústica experimental, esta fundada pelo violetista português Ernesto Rodrigues não poderia deixar de promover um cartaz que reflectisse tal diversidade.
No palco do O’culto da Ajuda, em Lisboa, passaram projectos que pouco têm que ver com a estética “near silence” promovida pelo músico, numa mobilização de tendências que envolveu tanto o Red Trio e o novo quarteto de Sei Miguel como figuras do Norte (a Free Jazz Company de Paulo Alexandre Jorge) e do Oeste (o Palimpsest Trio de Paulo Chagas, completado pelos italianos Silvia Corda e Adriano Orrú, ou a dupla constituída por Karoline Leblanc e Paulo Ferreira Lopes, “habitués” do MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia), além de formações colocadas em CD pela Creative, como o Zwann Ei Collective e Abdul Moimême a solo, convidados especiais de outros países, com destaque para Etiénne Brunet, formações nacionais limítrofes, a exemplo dos Psico-Free & Manicômio, e improvisadores com outros percursos na cena nacional, como André Hencleeday, dos Crua, ou Helena Espvall, frequente colaboradora de David Maranha.
Detemo-nos sobre quatro das apresentações realizadas. A que envolveu José Bruno Parrinha em clarinetes soprano e baixo, Manuel Guimarães ao piano e Ulrich Mitzlaff no violoncelo parece ter dado o mote para grande parte do que se ouviu para os lados de Belém, com a sua improvisação camerística, muito contemplativa, em recuperação do fraseado mais convencional e da tonalidade, suave na expressão e optando por um volume que, sendo reduzido, nem por isso alinhou com as premissas da tendência teorizada por Radu Malfatti. Todos eles com intervenções em discos da Creative Sources, que não com o formato deste trio, o que tocaram ganhou a forma de uma viagem, leve nos voos empreendidos, mas de pronunciado efeito introspectivo, convidando o público a fechar os olhos e deixar-se ir.
A violinista Maria do Mar e a vocalista Maria Radich estenderam a colaboração que vêm mantendo há alguns anos a um clarinetista brasileiro radicado em Barcelona que já se tornou um nosso visitante regular, Luiz Rocha. Talvez devido à diferença de configuração musical trazida por este, Radich saiu a espaços do âmbito da glossolália e do “speaking in tongues” que têm já a sua imagem de marca para entrar num canto sustenido e harmónico que deriva das suas práticas na pop e no rock (é membro das bandas Abztraqt Sir Q e Ovo) e que, neste contexto, resultaram em cheio, trazendo novas dimensões à narrativa criada e equilibrando-se da melhor maneira com os argumentativos violino e clarinete baixo. Um dos protagonistas maiores da cena francesa do jazz, com um currículo feito de parcerias com nomes como Fred Van Hove, Jac Berrocal, Anthony Coleman, Jean-François Pauvros e Sunny Murray, o saxofonista Etiénne Brunet teve um par de intervenções em duo, uma com Monsieur Trinité e outra com Miguel Mira. Nesta esteve particularmente próximo do que lhe é habitual, com um discurso jazzístico assumidamente “old school”, algures no cruzamento das linhas de influência de um Jimmy Lyons (no alto) e de um Steve Lacy (no soprano), num discurso acentuadamente melódico. Algo breve foi o concerto com o violoncelista português, este sempre muito eficaz na construção de envolvências e respostas ao trabalho dos saxes. Ficou evidente que Brunet queria continuar, mas Mira deu por finda a actuação poisando o instrumento e levantando-se quando sentiu que estava realizado um “statement” e que qualquer acrescento seria redundante.
O String Theory foi um dos grandes ensembles constantes na programação, entre o Suspensão e a Variable Geometry Orchestra, com a particularidade de integrar apenas cordas – se bem que com um piano incluído, nas mãos de Rodrigo Pinheiro, que surpreendentemente se deteve mais no teclado do que no interior do dito. Com quatro violoncelos (Guilherme Rodrigues, Yu Lin Humm e os já mencionados Mitzlaff e Espvall), quatro contrabaixos (João Madeira, Gianna de Toni, Hernâni Faustino e Marc Ramírez), dois violinos (Maria do Mar, Filipe Murat), a solitária viola de Ernesto Rodrigues, duas guitarras acústicas (no colo a de Miguel Almeida, deitada e sujeita a preparações a de Moimême) e um saltério (Hencleeday), ficou demonstrado como uma improvisação pode ser dirigida dentro da própria música em vez de sobre ela, a partir de fora. Rodrigues introduzia as situações, olhava em volta para verificar se os restantes as tinham empreendido e todos o seguiam.
O interessante foi observar de que modo, com uns a fazerem-no literalmente e outros a contribuírem com materiais complementares ou contrastantes, colocando algumas questões sobre o que é improvisar colectivamente e quais são os limites da igualdade de papéis e da liberdade de movimentos num contexto como este. Seja qual for a qualidade dos resultados, e esta existiu em vários momentos, uma performance musical vale a pena quando nos convida a pensar. Essa tem sido uma função do Creative Sources Fest e bom seria que, numa próxima edição do festival, houvesse espaço para a reflexão e o debate. Rui Eduardo Paes (Jazz.pt)

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Le CS Fest XI de Lisbonne comme si vous y étiez





Le CS Fest XI a eu lieu à Lisbonne du 21 au 25 novembre dans la salle O’Culto da Ajuda, traduction approximative : le culte de l’aide, l’occulte de la solidarité. Etienne Brunet y était et en était. Compte-rendu. 
La culture miraculeuse de la musique créative sera bientôt à la mode ! Au pays du Fado résonnera l’intervalle Fa dièse-Do bécarre, la fameuse quarte augmentée, « Diabolus in Musica » de l’improvisation exubérante. CS Fest XI est situé à Belem, vers une des sorties de la « ville blanche » le long du « Rio Tejo » au bout d’une impasse quasi introuvable dans un dédale de petites rues derrière le palais présidentiel. Pas de lumière. Pas de flics. La salle de concert polyvalente orientée musique contemporaine est très bien équipée. Tenue à bout de bras par Miguel Azguime. Deux tiers de scène pour un tiers de gradins. Très haut de plafond. Acoustique fantastique. Le festival est organisé par Ernesto Rodrigues et le label : Creative Source. Le public est composé de passionnés d’improvisation, d’aficionados de la creative music et des gens de l’underground lisboète. Les musiciens écoutent réellement leurs collègues. Ils ne font pas semblant, comme en France, pour s’enfuir dès que possible. Aucun touriste à l’horizon.
Pourquoi No Groove ? Parce que j’avais vendu cette proposition d’article avec ce titre. Je le trouvais super et l’ai utilisé comme nom du groupe avec lequel j’ai joué dans des boites de Lisbonne. J’avais renoncé à écrire un article et puis finalement je fais les deux. « Personne n’a voulu croire en moi, même comme menteur… » (Fernando Pessoa). Confusion créative. Je suis juge et partie. Ce n’est pas déontologique, mais logique en période de crise. No Groove est une sorte de courant d’air musical de free music contemporaine affluent du tempétueux free jazz historique. Une conscience du tempo dissoute dans une nappe sonore brutiste. Un Groove de l’absence. Un No du refus de la musique commerciale.

PREMIER SOIR
Je rentre chez moi passé deux heures du matin. La ville blanche est déserte empêtrée dans un profond brouillard bleuté qui dissout les lumières orange de l’éclairage public. Chaque soir il y a quatre performances. J’occulte les noms de musiciens et vous les donnerai dans le désordre à la fin de l’article. Au lieu d’écrire des généralités sur chaque concert particulier, je vais traiter ce festival comme un gigantesque concert de dix heures, beaucoup de musiciens participaient à trois ou quatre formations différentes. Comment détourner le vibraphone de sa stabilité sonore ? Un frottant des secondes majeures avec un archet au lieu des mailloches et en plaquant des accords complexes. Ensuite la guitare trafiquée semble résonner de la rumeur du bruit des avions qui survolent en permanence Lisbonne, la piste d’atterrissage est juste à une sortie de la ville. Autre écho lointain des gigantesques bateaux porte-containers bourrés des produits en série de la mondialisation. Ensuite Psico-free & Manicômio, un quartet de fous furieux dont la polyrythmie est utilisée comme refus de notre société du spectacle. Pour terminer le Suspensao Ensemble. Suspension du son et des certitudes esthétiques. Les adorateurs du silence sont une dizaine de musiciens à jouer pendant une demi-heure à moins cinquante décibels maximum c’est-à-dire le niveau sonore du tic-tac de votre montre mécanique, triple « ppp » si la chose était écrite. Impression très spectaculaire d’absence d’événements.

DEUXIÈME SOIR
Je n’ai écouté ni le premier ni le troisième groupe parce que je jouais en seconde position avec Miguel Mira, violoncelliste de génie. Tant pis ! Je fais une exception à ma règle d’occultation des noms et vais vous tartiner mon ego… Miguel est le musicien idéal. Nous sommes de la même génération. Vieille école. Nous jouons un free aventureux, virtuose avec une écoute télépathique. Excusez du peu comme dirait un vrai journaliste. J’écris masqué. Je n’y suis pour personne. Dernier concert de la soirée avec les quinze musiciens de la Théorie des cordes, probable référence à la théorie avancée de la relativité générale improvisée par des groupes de violons, violons altos dont Ernesto Rodriguez, l’organisateur et chef discret, violoncelles, contrebasses, guitare, dulcimer et piano. Le matériau sonore très fluide avance comme un monolithe spatial en plein essor dans la bande de fréquence de l’univers.

TROISIÈME SOIR
Le robot Facebook me propose de rester chez moi parce qu’il pleut. Après une longue sécheresse, le pays est en liesse. Je démarre la soirée en jouant avec mon vieil ami, le percussionniste Chico-go-blues. Nous lisons mon texte simultanément en portugais et en français. « L’impro c’est le chaos. Le chaos est les prémices de l’ordre. L’ordre est l’arrivée de la mélodie. La mélodie déclenche le rythme. Le rythme déclenche la vitesse. Accélération démesurée ! Tout se casse la gueule dans un bruit énorme. Mystère de l’entropie. » Magma sonore. Langue intermédiaire à racine latine. Les trois groupes suivants donnent un échantillon de la scène portugaise actuelle multiforme et bouillonnante. Pour finir un extraordinaire trompettiste légendaire et méconnu. J’ai l’impression d’être à Berlin, juste avant la gentrification galopante, même exaltation créative d’artistes enthousiastes prêts à jouer pour le plaisir. Lisbonne quant à elle se fissure petit à petit sous les infiltrations de la mondialisation. L’immobilier grimpe. La pauvreté augmente. Crash Saudade. Scratch Nostalgia. Brutal Nova.

QUATRIÈME JOUR
Free jazz Company, excellent groupe avec un nom synthèse splendide de free jazz et free music. Puis Palimpsest, on gratte la free music pour trouver en dessous le free jazz puis on continue à gratter et on trouve la musique classique. Ensuite le Red Trio, le groupe que j’ai préféré du festival. Ils ressuscitent une sorte de trio FMP que je ne nommerai pas. La bonne musique ne meurt jamais. La musique écrite se transmet par le biais du texte. L’improvisation sublime se transmet par capillarité dans l’air du temps. Soudain la fin d’une improvisation arrive au détour d’une note, évidente autant pour l’auditeur que pour le musicien. Pour terminer IKB ensemble, un autre grand orchestre d’une vingtaine d’instrumentistes spécialisés dans le silence ensoleillé. Impression de vide et de repos, mais tout le monde sait que le silence n’existe pas. A l’écoute de l’enregistrement, si l’on perd le repère fictif du zéro décibel (seuil de référence d’intensité sonore), on découvre le monde microscopique de l’infiniment petit de cellules complexes et d’objets minuscules, inaudibles comme des micros processeurs puissants et quasi invisibles.

DERNIER JOUR
Je passe devant les carreaux de faïence bleutée de la station de métro Parque gravés de citations et dessins. « C’est par la musique qu’a commencée l’indiscipline » (Platon). Ce pourrait résumer ce festival porteur de la musique du proche avenir. La notion de désordre sonore représente tellement notre société que toutes ces musiques à base de boîte à rythmes symbolisent la dictature Mainstream. Dans peu de temps, les futurs auditeurs des médias généralistes auront les oreilles explosées. Ils remplaceront le niveau sonore excessif d’une rythmique dictatoriale par le chaos amusant de l’anarchie sonore de la musique créative jouée à un niveau acoustique modéré. Une sorte de décroissance de la production de musique. Maintenant tous les styles coexistent. Il n’est pas question du combat de l’un contre l’autre, mais de circuits multiples, de démarches parallèles, de tribus organisées. Méfiez-vous : si vous n’y prenez garde, la musique créative pourrait devenir la musique politiquement correcte. En tout cas, la  free music est bien vivante et c’était une surprise, même pour moi. La rage est inexprimable avec un métronome. Elle l’est avec le cri, la dissymétrie, l’informel, le bruit brutal, le kaput play à s’arracher la gorge. Malgré tout, le mauvais esprit de l’absence de rythme est dommageable. Les syncopes restent l’oxygène de la musique.

DERNIER SOIR
Quatre concerts passionnants, avec une pianiste canadienne sublime puis la clôture : le Variable Geometry Orchestra. La quarantaine de musiciens du festival propulsé dans une improvisation grandiose dirigé par Ernesto toujours très calme (c’est le genre de type à boire un café avant d’aller se coucher), un peu à la manière du soundpainting ou de la conduction, mais avec des signes et des règles improvisées comme leur traduction sonore par chaque musicien. Les artistes sont disposés au hasard sur la scène par désordre d’arrivée. Les contrebassistes sont devant les saxos, les quatre batteurs sont placés à chaque coin de la scène. Fin de « variable » sur une longue résonnance décroissante jusqu’au silence… •

Au total vingt concerts. Environ dix heures de musiques diffusées en direct sur YouTube et maintenant archivés sur la page misomusic.com. Étienne Brunet

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

ENSEMBLES - Ernesto Rodrigues em versão big


photo: Ernesto Rodrigues & Manuel Mota

Improvisar sem partituras com uma orquestra ou um grupo com grande número de elementos é particularmente difícil, havendo mesmo quem jure ser impossível. O violetista de Lisboa encontrou nisso um desafio e com projectos como Variable Geometry Orchestra, IKB, Suspensão e Diceros vem ultrapassando problemas e propondo maravilhas. A jazz.pt ouviu os discos…

Há três figuras que ganharam o estatuto de pivôs da cena da improvisação em Portugal. Um devido ao seu pioneirismo, dando origem a uma movimentação que tem crescido exponencialmente, outro porque criou um sistema muito específico que se tornou num modelo referencial e um terceiro que vem mobilizando um grande número de músicos das mais variadas áreas em torno dos seus projectos. No primeiro caso está Carlos “Zíngaro”, com a mais-valia de se ter mantido na linha da frente de uma música continuamente em renovação. No segundo, evidencia-se Sei Miguel, com metodologias que influenciaram decisivamente as práticas de algumas importantes figuras hoje em actividade, começando por Rafael Toral, Manuel Mota e Pedro Gomes. Finalmente, no terceiro caso encontramos Ernesto Rodrigues, cujos “ensembles” alargados envolvem uma boa parte dos agentes da cena lisboeta da música improvisada, independentemente das suas orientações estéticas.
Mas não é só: as mais recentes edições das “big bands” de Rodrigues, designadamente Variable Geometry Orchestra (mais conhecida como VGO), IKB, Suspensão e a recém-estreada Diceros, têm dado novos e muito positivos contributos para esse difícil empreendimento que é improvisar – sem partituras nem motivos previamente estabelecidos – em formato orquestral. Nesse aspecto, também ele tem uma fórmula pessoal para enfrentar os problemas organizacionais levantados pelo contexto. Uma perspectiva muito sua, e transferida dos pequenos grupos de que partiram para outros que vão dos oito elementos a quase 50, dos conceitos propostos pelo Spontaneous Music Ensemble de John Stevens e pelos AMM de Cornelius Cardew, tendo como exemplos pelo meio o que fez a Globe Unity Orchestra e mais recentemente a London Improvisers Orchestra. Outras referências parecem ser John Cage (uso do silêncio), Morton Feldman (não-linearismo) e Emmanuel Nunes (os, no compositor, característicos “alongamento” e “dobragem” das estruturas musicais).

[…] A importância de Ernesto Rodrigues na música criativa portuguesa está ainda à espera, por cá, do reconhecimento que lhe é devido, e isto não obstante ser o improvisador nacional com mais discos lançados. Estes que nesta página vos apresentamos projectaram-no no mundo, com a imprensa especializada a elogiá-lo entusiasticamente. Rui Eduardo Paes (Jazz.pt)

terça-feira, 29 de agosto de 2017

LISBON STRING TRIO - Em busca do acorde perfeito


Diceros (foto de Nuno Martins)



O outro trio de cordas de Lisboa lançou seis discos seis com a sua particular proposta de música de câmara improvisada, cinco deles com músicos de outros países que, propositadamente, não tocam cordofones. O seu propósito é mostrar que o que três ou quatro pessoas criam musicalmente em conjunto, com poucos elementos (notas), só pode ser melhor do que aquilo que fizer uma apenas, com muitos. Dizendo de outro modo: um acorde ou é colectivo ou resulta imperfeito.

A designação Lisbon String Trio tem o inconveniente do muito uso e da possibilidade de ser confundida com outros projectos, e logo para começar dentro do próprio rectângulo de terra a que chamamos Portugal. Foi exactamente com esse nome que tocou, no Jazz em Agosto de 2016, a secção de cordas (portuguesa) dos Young Philadelphians de Marc Ribot. Aos músicos clássicos João Andrade (violino), Teresa Fleming (viola) e Nelson Ferreira (violoncelo) foi pedido que, além de lerem as partituras de temas históricos de disco e R&B, também improvisassem. Dessa tarefa saíram-se bastante bem, não obstante a sua inexperiência nesse tipo de abordagem e o atabalhoamento da condução de um Ribot a tocar e a dirigir em simultâneo. Lisboa String Trio é ainda (só varia uma letra) o nome de um grupo que junta José Peixoto (guitarra), Bernardo Couto (guitarra portuguesa) e Carlos Barretto (contrabaixo), também ele dedicado a associar o jazz com outras formas de música, no caso a nacional.
Este outro Lisbon String Trio nada tem que ver com ambos esses exemplos, ainda que, à semelhança do último, não corresponda à instrumentação típica do trio de cordas da música de câmara. Nesse domínio, as variantes vão para as combinações entre violino, viola e violoncelo (a mais comum), dois violinos e violoncelo, dois violinos e viola e uma reduzida quantidade de outras associações, a mais conhecida e recente das quais concretizada por um homem que, habitualmente, compõe e toca jazz, John Zorn – trata-se de “Walpurgisnacht”, de 2004, para violino, viola e contrabaixo. Agora, a fórmula junta uma viola, a de Ernesto Rodrigues, um violoncelo, o de Miguel Mira, e um contrabaixo, o de Alvaro Rosso. Todos os três têm um percurso na livre-improvisação e é nesse âmbito que actuam. Com a particularidade de dois deles (Rodrigues e Rosso) terem formação clássica e um (Mira) vir do jazz, do funk e dos blues, se bem que com outras experiências de renovação do modelo camerístico de permeio, nomeadamente a do Staub Quartet, com Carlos “Zíngaro”, Hernâni Faustino e Marcelo dos Reis.
A reunião destes três improvisadores não era a mais óbvia de ocorrer, dado que Ernesto Rodrigues tem feito o seu percurso na linha do reducionismo, Miguel Mira prefere situações mais “jazzy”, como a do Motion Trio de Rodrigo Amado, que integra, e Alvaro Rosso tem-se notabilizado numa linha “old school” (passe o termo) da música improvisada. O álbum “Proletariat” revelou, no entanto, que a mistura destas personalidades trazia algo de particularmente interessante. O princípio número 1 do trio está na utilização individual do mínimo de elementos, num contexto em que o que realmente importa é o efeito de conjunto. Só há acordes quando o último membro do trio acrescenta uma nota às dos seus parceiros, sabendo que é essa nota que dá seguimento ao que vem depois, num imediatismo da responsabilidade que pode ser esmagador. É como se se procurasse o acorde perfeito, e “perfeito” porque resultante de uma verdadeira, não planeada, espontânea, geração.
Se tal, nesse disco, funcionou como um modelo, os cinco CDs posteriores (e editados em rápida sucessão) desta cooperativa musical colocaram-no em causa (ainda que prolongando as suas implicações) sempre com a inclusão de um convidado, por regra um músico de outro país em passagem por Portugal. Além de se transformarem as situações triangulares em quartetos bem menos esquemáticos, quebrou-se com o molde “grupo de cordas”. “Télépathie” juntou ao trio o saxofone soprano do francês Étienne Brunet. Em “K’ampokol Che K’aay” figura o norte-americano Blaise Siwula com um nele pouco usual clarinete (os seus instrumentos habituais são os saxofones alto e soprano). Em “Akuanduba” encontramos o clarinetista (baixo e soprano) brasileiro Luiz Rocha, radicado em Barcelona e parte da cena que gira à volta da Discordian Records. Em “Intonarumori” está o trombonista italiano Carlo Mascolo. Finalmente, em “Liames” intervém a pianista canadiana Karoline Leblanc. Rocha, Mascolo e Leblanc são frequentes participantes no MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia, com presenças a repetirem-se em várias edições. Brunet participou em 2017 num concerto do “ensemble” Paris-Lisbonne Connexion (Cinemateca Portuguesa) em que estiveram envolvidos José Lencastre, José Bruno Parrinha, Luís Vicente, Tiago Varela, Miguel Mira, Pedro Santo e Monsieur Trinité. Também este ano, Siwula tocou nas Oficinas do Convento, em Montemor-o-Novo, e na Zaratan, em Lisboa, com Jorge Nuno, Hernâni Faustino, Pedro Arelo e André Calvário.
Apesar das necessárias diferenças introduzidas pelo trabalho do quarto elemento, bem como dos questionamentos a que procedem das linhas condutoras do Lisbon String Trio, o que se verifica na audição destes discos é que a identidade do mesmo prevalece. Mantêm-se tanto as diferenças relativamente à música europeia contemporânea e à new music americana como o vínculo formal com as ditas, mantêm-se as dúbias relações com as referências do free jazz, umas vezes mais pacíficas e outras claramente em conflito, assim como são ambíguas as conexões da prática improvisacional perseguida com o “near-silence” e as preferências desta tendência pela textura e pelo timbre. As minhas preferências vão para a edição que apresenta o trio, até porque é aquela que define os fundamentos do projecto, e para os títulos em colaboração com Luiz Rocha e Carlo Mascolo, personalidades da improvisação dos nossos dias a quem ainda não foi dado o pleno reconhecimento internacional que merecem.
Não termino sem assinalar que as excelentes capas destes álbuns têm como base colagens de Dilar Pereira, artista visual que colabora com a jazz.pt. Rui Eduardo Paes (Jazz.pt)

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Improvised Music with a Textural Focus: Creative Sources




For years, the prolific Portuguese label Creative Sources has released challenging sets of improvised music with a distinctly textural focus. The label, founded and run by violist Ernesto Rodrigues, is home to an aesthetic of nuanced improvisation open as much to pure sound as to empty space. Because its extensive catalogue includes work by some of the top free improvisers active in Europe and elsewhere, it’s only natural that it would encompass a broad spectrum of approaches to improvisation. Nevertheless many of the releases share a meticulous concern with striking and maintaining an architectural balance of forces no matter how many or few musicians are playing, or how unconventional the sounds. Three of the label’s recent releases are consistent with this well-developed aesthetic strategy. Daniel barbiero (Percorsi Musicali)

terça-feira, 21 de março de 2017

CULTO CILCUITO

photo: Melanie Pereira


[…] A “triple bill” arrancou no Armazém 22 com o Lisbon String Trio de Ernesto Rodrigues, Miguel Mira e Alvaro Rosso, contrabaixista do Uruguai residente na capital portuguesa. Com estes intervenientes, gerou-se a expectativa de que o grupo de cordas trabalhasse na área de fronteira ente as duas grandes correntes da música de câmara improvisada, aquela que segue as premissas texturais e tímbricas do reducionismo, de que Rodrigues é entre nós o principal cultor, e a que é fiel às lógicas narrativas e de fraseado da livre-improvisação original (Mira é também membro do Staub Quartet, com Carlos “Zíngaro”, Hernâni Faustino e Marcelo dos Reis). Assim sucedeu, e com um espírito colectivista que foi fundamental para os desenlaces: um dos executantes atirava com um som, outro acrescentava-lhe um mais e com o terceiro completava-se um acorde. Foi quase sempre este o procedimento construtivo utilizado, em plena interacção e sem solos convencionais, indo do muito simples, cru e despido até complexas filigranas, estabelecendo um («raro», como dizia Paulo Alexandre Jorge na apresentação) mundo pós-clássico e pós-jazz. Rui Eduardo Paes (Jazz.pt)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

CATCHING UP WITH ERNESTO RODRIGUES


photo: Ernesto Rodrigues & Fred Lonberg-Holm

Ernesto Rodrigues has a formidable discography. After launching Creative Sources in 2001 to begin documenting his own music, the label has grown to become an icon of free music—especially music preoccupied with silence and space, texture and timbre. As the label has expanded to encompass more artists, Rodrigues has continued to release his own projects and collaborations with musicians from across the globe. Now, more than 15 years later and with over 100 releases to his name, it can be intimidating to approach Rodrigues’ oeuvre. But it would be a shame to avoid it for fear of not knowing where to start.

Though all born of the same musical sensibility, Rodrigues’ discography could be grouped according to the varied approaches he takes to free improvisation. There are his large group experiments like Variable Geometry Orchestra, IKB, or Suspensão; his lowercase pursuits with musicians like Martin Küchen, Heddy Boubaker and Radu Malfatti; and livelier, more ‘traditional’ interplay on early discs like Multiples or recent releases with musicians like Roland Ramanan, Biliana Voutchkova, and Phillip Greenlief.  There are also long-form engagements: with electroacoustic music and the use of computers and electronics in improvisation; with other strings, pushing ceaselessly against conservatory conceptions of string instruments and their place in music; and ongoing dialogues with close musical comrades like Carlos Santos, José Oliveira, Nuno Torres, and his son, Guilherme Rodrigues, who has appeared on many of his albums, dating back to the first Creative Sources release. 


Regardless of the specific approach, there’s an aesthetic that underlies all of Rodrigues’ music, one that values the space that surrounds him as much as the music he then puts into it.  It also values the spaces between sounds and gestures, constantly weighing the balance between what exists in the moment before a musical act and what that act might add. David Toop writes in Into the Maelstrom that “music is a respiratory motion – created in the moment of action then fading away – and through that common bond of presence and absence all sounds are connected.” Thinking of music in terms of breathing—especially improvised music like Rodrigues’—has a certain appeal: something about sound as an exhalation; about silence as the corresponding inhalation, a necessary rest between sounds pushed out into being (and from which all is drawn in that gives those sounds meaning); about organic and corporeal rhythm, tied not to strict tempo but to the thrumming energy that marks the very state of being alive. Dan Sorrells (The Free Jazz Collective)

sábado, 7 de janeiro de 2017

NEWS FROM CREATIVE SOURCES


photo: Rui Silva


New from Creative Sources Records, {the} nature {of things} likes to hide [CS393]. A layered composition by Ernesto Rodrigues (viola) and Guilherme Rodrigues (cello), responding to two foundation tracks by me on prepared bass and granular synthesizer, respectively. As always, Ernesto and Guilherme play sensitively and appositely. (What is it that hides its nature? The double bass, first through preparations and extended technique, and then through granulation.) Daniel Barbiero (danielbarbiero.wordpress)

terça-feira, 22 de novembro de 2016

CREATIVEFEST: MEDIDOR DE TENDÊNCIAS


photo: Fred Lonberg-Holm, Ernesto Rodrigues & Miguel Mira

A décima edição do festival da editora Creative Sources serviu, mais uma vez, para perceber por onde vão os caminhos da música improvisada e de como nesta área não existem cartilhas. Aqui ficam algumas palavras sobre o que a jazz.pt ouviu…
Com solos, duos, trios e um “ensemble” reunindo uma boa quantidade dos músicos improvisadores em actividade na região da Grande Lisboa, o Creative Fest realizou entre 17 e 19 de Novembro passado a sua décima edição. Nesta concentrou todos os concertos num único espaço, o que a Miso Music recentemente abriu em Belém (O’Culto da Ajuda) e que, além de uma programação especializada na área da electroacústica “erudita”, vem igualmente abarcando alguma música composta no próprio instante da execução. Esta cumplicidade foi, de resto, assinalada por Miguel Azguime, responsável do O’Culto e nome maior da música contemporânea em Portugal. Referiu este numa breve introdução as suas já antigas ligações com Ernesto Rodrigues, o patrão da editora Creative Sources, e o comum esforço por lutar contra a asfixia das práticas musicais que não são abarcadas pelas leis do mercado e nem por isso encontram lugar nas políticas culturais dos sucessivos governos.
Em todos os momentos foi clara a conexão de mais este Creative Fest com a actividade da Creative Sources. Exemplos claros foram os concertos da dupla Luís Lopes / Fred Lonberg-Holm, que nesta etiqueta tem disco acabado de sair, “The Pineapple Circumstance”, de Manuel Guimarães para apresentação de um muito aguardado solo de piano, “Flow Me”, ou de Guilhermo Torres, Tomás Gris e David Area, membros do grupo que toca no recente “Aleph”. No alinhamento do Creative Fest deste ano estava também uma actuação da Variable Geometry Orchestra, para gravação de mais um CD a editar pela Creative, e se as restantes performances não correspondiam a discos em circulação ou planeados, eram protagonizadas por gente “da casa”, casos de Carlos Santos, em dueto com Emídio Buchinho, ou de José Oliveira, num regresso aos palcos com parâmetros inesperados – um solo vocal –, ele que habitualmente surgia como percussionista.
Mas o Creative Fest não serve apenas para fazer o ponto da situação anual da Creative Sources. Nele mais uma vez foi possível ouvir projectos não-alinhados que há pouco tempo tiveram o seu arranque, como a parceria entre Maria Radich e Maria do Mar e o trio de Yedo Gibson, Jorge Nuno e Monsieur Trinité, além de encontros inéditos de músicos nacionais com estrangeiros, como a associação de Ernesto Rodrigues e Miguel Mira a Fred Lonberg-Holm, e de estreias absolutas de novas formações, como aquela – fora de série, pelo que se ouviu – que junta Rodrigo Pinheiro e Nuno Torres.

A plateia do O’Culto da Ajuda estava numerosamente preenchida por músicos de várias tendências (por exemplo, Marco Barroso, Gil Dionísio e Nuno Moita, figuras que não identificamos com o universo Creative Sources), o que é um sinal curioso do apreço da comunidade pelo trabalho desenvolvido por este grupo de pessoas. A Creative Sources pode não ter a relevância mediática da Clean Feed, apesar do nascimento de ambas mais ou menos pela mesma altura e de, como aquela, ter um catálogo que ronda os 400 títulos (sim, 400!), mas a importância que vai tendo para a cena internacional da improvisação livre é muito semelhante à que relativamente ao jazz tem a editora liderada por Pedro Costa. Algo a que não se está a dar a devida importância, num país tradicionalmente indiferente à criatividade dos seus artistas e aos feitos dos seus promotores culturais. A jazz.pt assistiu às prestações das duas Marias, do duo de Pinheiro e Torres e do de Lopes com Lonberg-Holm…  [...] De resto, a esse nível, a mensagem que passou foi a de que improvisar, por estes dias, não tem uma cartilha. O Creative Fest é um medidor de tendências a que devíamos dar toda a atenção, e esta edição esclareceu mais alguns pontos evolutivos. Venha a próxima. Rui Eduardo Paes (Jazz.pt)

quinta-feira, 7 de julho de 2016

ALBUNS OF THE YEAR 2015: "LULU AUF DEM BERG"



photo: Ernesto Rodrigues

Ernesto Rodrigues’ haunting freeform orchestra returns with a massive, reverberating slab of sound. A great example of how a deft conductor can overcome the problems of large-scale improvisation. Dan Sorrels (The Free Jazz Collective)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

IMPROVISAÇÃO DESCARNADA



Photo: Ernesto Rodrigues, Eduardo Chagas & Carlos Santos

Antes de mais, saúde-se o magnífico trabalho da editora que acaba de publicar este disco. Registado na lombada como “CS299”, este lançamento representa a 299ª edição da label Creative Sources, fundada e sedimentada por Ernesto Rodrigues ao longo da última década e meia. Três centenas de gravações de música improvisada, juntando muitos músicos portugueses e alguns grandes nomes da cena internacional, merecem justamente a celebração. E merece um aplauso especial por se tratar de uma música muito específica, sem apelo comercial. Ao longo de todos estes anos a Creative Sources tem apresentado um trabalho sério de edição regular, com qualidade e coerência estética. Trata-se de improvisação pura, com ênfase na vertente reducionista, mas não só: o catálogo vai da improvisação mais abstracta até às fronteiras do jazz. Nuno Catarino (BodySpace)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

L'ART D'ERNESTO RODRIGUES, LE VIOLONISTE ALTO



photo: Ernesto Rodrigues

Parmi les musiciens nouveaux venus dans la scène improvisée radicale internationale au début des années 2000 et qui apportèrent une nouvelle dimension au développement de la musique improvisée, il est impensable d’omettre l’altiste portugais Ernesto Rodrigues. J’imagine que le critique lambda pensera « Ah oui, il a un label et il joue aussi ». Mais il se fait  que son catalogue a atteint 340 références en offrant des produits soignés avec des prises de son impeccables tout en publiant exclusivement les musiques les plus pointues. Point de ralliement d’une nouvelle génération « réductionniste » (Denzler, Guionnet, Mariage, Sehnaoui frère et sœur, Mazen Kerbaj, Birgit Ulher, Heddy Boubeker, Rhodri Davies, Masafumi Ezaki, Rodrigues père et fils, Jason Kahn, Axel Dörner, Wade Matthews, Stéphane Rives, Bertrand Gauguet, David Chiesa, Boris Baltschun, Kai Fagaschinski, Carlos Santos et nombre d’artistes sonores expérimentaux), le catalogue CS s’est étoffé petit à petit avec des artistes tels que Richard Barrett, Stefan Keune, Jacques Demierre, Ute Wassermann, Alexander Frangenheim, Jacques Foschia, Isabelle Duthoit, Ariel Shibolet.. Sans pour autant rechercher les pointures, c’est un peu par hasard qu’on y trouve Jon Rose, Roger Turner, Gunther Christmann ou Urs Leimgruber et quelques chefs d’œuvre comme ceux que je viens de chroniquer cette semaine. Non content de travailler comme un fou pour son label, Ernesto Rodrigues a rencontré une multitude d’improvisateurs de quasiment tous les pays d’Europe, suscitant de superbes rencontres. Très austère au départ, sa pratique de l’instrument me l’avait fait qualifier (en souriant) de travail d’ébéniste, tant son chantournage maniaque faisait crisser et grincer l’archet comme si c’était un couteau à bois dans mobilier squelette, univers où la pulsation même la plus décalée et la moindre trace de mélodie était inexorablement évacuée. On aurait cru que les bois de son violon alto et du violoncelle de Guilherme gémissait et criait sous une torture sadique. Cet univers à la fois cartésien et intériorisé a culminé dans London, un enregistrement de concert assez court avec son  fils Guilherme au violoncelle, Alessandro Bosetti au sax soprano, Angarhad Davies au violon, et Masafumi Ezaki à la trompette, ou Drain, un intrigant trio de cordes avec Guilherme Rodrigues, à nouveau, et le violoniste Mathieu Werchowski. Jean-Michel van Schouwburg (Orynx)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

LES CREATIVE SOURCES NE SE TARISSENT POINT


photo: Ernesto Rodrigues

Creative Sources  est devenu un label qui compte au fil des ans avec un catalogue énorme (plus de 330 références). S’il fonctionne sur le mode de l’auto-production des artistes impliqués, Ernesto Rodrigues  veille à ce que la musique produite révèle de nouveaux talents, des produits soignés, une recherche expérimentale assumée et intéressante ou de l’improvisation libre pointue de haute qualité, exigeante. De plus en plus souvent, on y découvre de vraies perles dans le domaine de l’improvisation libre, au-delà du parti pris de la démarche réductionniste radicale, new silence, soft noise, EAI (etc) sans concession qui fut la marque de fabrique de CS à leurs débuts et dont Ernesto est un remarquable praticien. Un vrai plaisir de l’écoute partagé. En outre, le graphisme des pochettes cartonnées (depuis peu!) est superbe grâce au travail du fidèle Carlos Santos.  Le noyau de Rodrigues père et fils (Guilherme) ont produit des dizaines d’albums intéressants dans une belle démarche radicale en compagnie d’improvisateurs issus d’horizons divers. Certains albums sont réellement de vraies réussites comme l’orchestre IKB. Et donc, comme plusieurs labels historiques passent tout doucement la main (Incus, Emanem, Psi, FMP, NurNichtNur), d'autres cessent leur activité ou s’alignent sur un jazz libre de bon aloi (Intakt), notre label portugais est devenu une référence incontournable. Jean-Michel van Schouwburg (Orynx)

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

CREATIVEFEST 9


photo: Ernesto Rodrigues

Contando este ano com 14 anos de actividade ininterrupta, num catálogo imponente com mais de 300 edições, a editora de Ernesto Rodrigues tem vindo a sedimentar uma visão profundamente idiossincrática por entre os meandros da música improvisada, com um vigor e propriedade únicos. Embora habitualmente conotada com as estratégias da improvisação lower case e do reducionismo, que têm no seu mentor um dos nomes mais fulcrais, não se esgota nesses pressupostos, abrindo espaço para edições tangentes a alguma electrónica mais abstracta, ao jazz, à música contemporânea e electro-acústica e demais formas incatalogáveis com um sentido de direcção inatacável que se celebra em vários pontos da cidade e que tem na ZDB ponto de paragem natural e obrigatório nos dias 27 e 28. (ZDB)

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

CREATIVE FEST REALIZA-SE DE 24 A 29 DE NOVEMBRO


photo: Ernesto Rodrigues and José Oliveira


A 9ª edição do Creative Fest, o festival que reúne a família da editora Creative Sources, realiza-se este ano entre os dias 24 e 29 de Novembro. Durante seis dias serão apresentados concertos de música improvisada em cinco espaços lisboetas diferentes. O festival arranca no dia 24 na Ler Devagar, na Lx Factory, que acolhe três concertos: quarteto de Paulo Galão, Paulo Gaspar, João Madeira e Alvaro Rosso; trio de José Bruno Parrinha, Ricardo Jacinto e Luís Lopes; e o ensemble "Suspensão", com Ernesto Rodrigues, Guilherme Rodrigues, Nuno Torres, Eduardo Chagas, António Chaparreiro, Carlos Santos, Miguel Mira e Nuno Morão. No dia 25 o O'Culto da Ajuda recebe a actuação do colectivo IKB, grupo de grande dimensão e formação variável. No dia 26 o Desterro vai acolher duas actuações: duo de Paulo Alexandre Jorge e Manuel Guimarães; e duo de Luís Vicente e Joaquim de Brito.

A Galeria ZDB vai acolher concertos em dois dias, nos dias 27 e 28. No dia 27, sexta-feira, há cinco concertos: solo de Simon Vincent; solo de Maria da Rocha; duo "Sirius" de Yaw Tembe e Monsieur Trinité; trio de António Chaparreiro, Bernardo Álvares e Nuno Morão; e "Lost Socks" de Marco Von Orelli e Sheldon Sutter. No sábado, 28, a ZDB recebe mais cinco concertos: trio de Maria do Mar, Luís Rocha e Adriano Orrú; e ADDAC Quarters, de André Gonçalves, Filipe Felizardo, Nuno Moita e Ricardo Guerreiro; trio de Albert Cirera, Abdul Moimême e Alvaro Rosso; "Angel Trio" de Stephan Sieben, Adam Pultz e Hakon Berre com o convidado Paulo Chagas; e quinteto de Ernesto Rodrigues, Guilherme Rodrigues, Nuno Torres, Eduardo Chagas e Carlos Santos.

O festival encerra no domingo, dia 29, às 17h00 na Igreja de St. George, com a actuação da Variable Geometry Orchestra, ensemble de grande dimensão que vai reunir no mesmo palco a maior parte dos anteriores participantes no festival. Nuno Catarino (Bodyspace)

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

VEM AÍ UMA SEMANA DE CREATIVE FEST



photo: Ernesto Rodrigues / VGO


Dura toda uma semana, de 24 a 29 de Novembro. É a mais longa edição do festival da Creative Sources, o outro caso de sucesso, a par da Clean Feed, da edição discográfica portuguesa na área da improvisação, com alguma electroacústica e algum jazz à mistura entre mais de 300 títulos publicados. Serão quatro os locais ocupados pelo Creative Fest, a Ler Devagar (Lx Factory), o Desterro, o O’Culto da Ajuda, a ZDB (o único espaço em que o evento se realizará em dois dias consecutivos) e a St. George’s Church, sempre em Lisboa.
Serão três os concertos da Ler Devagar, a 24. Primeiro um quarteto reunindo dois clarinetistas Paulo Galão e Paulo Gaspar, e dois contrabaixistas, João Madeira e Alvaro Rosso, depois o trio de José Bruno Parrinha (clarinetes e saxofones), Ricardo Jacinto (violoncelo) e Luís Lopes (guitarra eléctrica) e finalmente o ensemble Suspensão, com Ernesto Rodrigues (viola), Guilherme Rodrigues (violoncelo), Nuno Torres (saxofone alto), Eduardo Chagas (trombone), António Chaparreiro (guitarra eléctrica), Carlos Santos (electrónica), Miguel Mira (contrabaixo, em vez do seu habitual violoncelo) e Nuno Morão (percussão).
A 25, no O'Culto da Ajuda, será a vez do IKB, colectivo inspirado no tipo de azul ultramarino sintético inventado pelo artista plástico Yves Klein e que conta com uma formação variável reunida a partir da nata da música improvisada, do jazz, da electrónica e das novas tendências praticadas na Grande Lisboa. No dia 26 passa-se para o Desterro, onde haverá uma dupla de duetos, com Paulo Alexandre Jorge (saxofones) e Manuel Guimarães (baixo eléctrico, a sua nova descoberta) e, após intervalo, Luís Vicente (trompete) e Joaquim de Brito (berimbau).
Na ZDB, a 27, serão cinco as prestações. A dois solos de Simon Vincent (electrónica) e Maria da Rocha (violino) seguem-se o projecto Sirius de Yaw Tembe (trompete, electrónica) e Monsieur Trinité (percussão, objectos), o trio de António Chaparreiro, Bernardo Álvares (contrabaixo) e Nuno Morão e os Lost Socks de Marco von Orelly (trompete) e Sheldon Sutter (bateria), ou seja, a metade suíça dos Big Bold Back Bone.
O dia seguinte, ainda na ZDB, abre com o triângulo de Maria do Mar, Luís Rocha (clarinetes) e Adriano Orrú (contrabaixo), este ano estreado no MIA, e o ADDAC Quarters de André Gonçalves, Filipe Felizardo, Nuno Moita e Ricardo Guerreiro, sendo de prever que este estará centrado na utilização dos sintetizadores modulares ADDAC, de Gonçalves. Seguem-se o saxofonista Albert Cirera com Abdul Moimême (guitarra eléctrica preparada) e Alvaro Rosso, o Angel Trio de Stephan Sieben (guitarra eléctrica), Adam Pultz (contrabaixo) e Hakon Berre (bateria) com Paulo Chagas (oboé, flauta, clarinetes, saxofones) como convidado e um quinteto com Ernesto Rodrigues, Guilherme Rodrigues, Nuno Torres, Eduardo Chagas e Carlos Santos.
O fecho faz-se no fim da tarde de 29 de Novembro, na St. George’s Church, com a Variable Geometry Orchestra, juntando a maior parte dos anteriores participantes do festival no prosseguimento do trabalho apresentado no recentíssimo “Lulu Auf Dem Berg”. Rui Eduardo Paes (Jazz.pt)

terça-feira, 22 de setembro de 2015

EXPERIMENTAL MUSIC IN THE AZORES


photo: Ernesto Rodrigues

Violinist/violist, composer, and improviser Ernesto Rodrigues lives in Lisbon but also has a house on Pico and runs the Creative Sources label, which appears to be a great entry point into current Portuguese improvised music. I first encountered him in a video by artist Emanuel Albergaria, improvising with Gianna de Toni, an Italian guitarist and bassist living in Ponta Delgada, São Miguel, where she teaches guitar in the conservatory. She's involved in various musical activities, playing classical guitar, in symphonies and jazz groups, and in a contemporary folk group with Rafael Carvalho (she's also featured in the version of Roxanne mentioned above). Rodrigues and de Toni can be heard together on the CD Trees, an album of beautiful free improvisations with cellist Guilherme Rodrigues, soprano saxophonist Christophe Berthet, and electric bassist Raphael Ortis. Here is a live recording of Rodrigues in a quartet with Guilherme Rodrigues, Jassem Hindi, and Tisha Mukarji. Steve Peters (Deep Songs)

quinta-feira, 30 de julho de 2015

O OUTRO LADO DA CREATIVE SOURCES


photo: Ernesto Rodrigues, Nuno Torres & Maria Radich

O outro lado da Creative Sources

A editora de Ernesto Rodrigues não publica apenas as novidades do reducionismo e da improvisação electroacústica. O seu catálogo inclui também alguns títulos com instrumentações mais convencionais e um mais claro alinhamento com o jazz. Analisamos aqui sete exemplos recente.

A Creative Sources é habitualmente identificada com a corrente reducionista da improvisação, e quando assim não acontece o que se sublinha é o seu alinhamento com as actuais tendências da música electroacústica tocada em tempo real. E no entanto… o selo lisboeta dirigido pelo violetista Ernesto Rodrigues lança, igualmente, alguns registos do autodesignado jazz criativo ou próximos da tradição do free jazz. Aqui em análise estão sete exemplos (mais do que se poderia esperar, na verdade) desse investimento lateral, publicados no último ano.
Se não fossem alguns dos nomes mais conhecidos (John Edwards, Mark Sanders, Jacques Di Donato, Floros Floridis, Alexander Frangenheim, Roger Turner…), a consulta dos instrumentários nas fichas técnicas bastaria para perceber que estes discos não condizem com a orientação habitual da editora. As combinações de timbres são bem mais convencionais, com a clássica secção rítmica com bateria, contrabaixo e, às vezes, piano atrás de um ou mais sopros e de outros instrumentos melódicos e solistas. Ainda que as músicas tocadas fujam aos padrões e pouco fique das jazzísticas hierarquizações de naipes.

Como não podia deixar de ser, esta outra, e menos comentada, vertente da Creative Sources surge com vários matizes. Pode ir desde a mais explícita incursão na estética do grito inaugurada por Albert Ayler, aquilo a que os improvisadores mais experimentais chamam – mal ou bem – ”old school”, até uma música exploratória com vagas ligações reminiscentes com a gramática e o património do jazz. Entre um “estado” e o outro passando por diversos níveis de relacionação com essa matriz, entre distanciamentos e aproximações.  Vejamos como, caso a caso… Rui Eduardo Paes (Jazz.pt)

sexta-feira, 10 de abril de 2015

ERNESTO RODRIGUES - REDUX MAXIMUS


photo: Ernesto Rodrigues, Nuno Torres & Guilherme Rodrigues

Ouvir os últimos registos do improvisador português que mais discos tem editados é observar a presente evolução da tendência de que é o principal representante neste país: o reducionismo. Em análise 14 títulos que revelam as novas características desta corrente e o papel que nelas está a ter o violetista de Lisboa.
Ernesto Rodrigues é o músico improvisador português que tem mais discos editados. A circunstância de ser o responsável de uma etiqueta, a Creative Sources, não é estranha a esse facto, como se torna evidente, mas a verdade é que a sua capacidade de produção parece inesgotável. E sendo ele o protagonista de uma das frentes da corrente reducionista, colocando Lisboa a par de Londres, Paris, Berlim, Tóquio e Beirute, as mais importantes, a quantidade e as características dos títulos que vai publicando permitem que fiquemos com uma perspectiva da própria evolução da tendência estética que, na improvisação, trocou o fraseado pelas texturas e as progressões harmónicas ou os modalismos por um foco no timbre sem tom definido.
Os registos aqui analisados são os seus mais recentes e demonstram bem que o igualmente chamado “near silence” está a sofrer transformações que não há muito julgaríamos improváveis. Uma, e talvez a que tem mais impacto, é a colocação de uma perspectiva de espaço em primeiro plano. Espaço preenchível em termos sonoros e projecção desses sons, espacialização, no local das performances, com a arquitectura, o meio, a definir o que se toca. Outra mudança detectável na música de Rodrigues em diversas formações é a repetição de elementos sónicos e, inclusive, sua articulação até formar uma sentença, algo que se considerava um tabu.
Reposto está igualmente o factor de dramatização com que se tinha cortado para contrariar os excessos expressionistas da “old school”: estão aí novamente as lógicas ascensionais, de clímax e de criação de atmosferas e estados de espírito. O que implica que voltou, também, o sentido de narrativa, por menos linear que esta seja. O reducionismo de Ernesto Rodrigues e dos seus parceiros aumentou de tamanho: é mais activo, mais atarefado. Mesmo que o volume se mantenha baixo, há muitas coisas a acontecer. Mas os próprios decibéis subiram – por vezes, estes desenvolvimentos da escola reducionista parecem encontrar-se com a noise music.
É hoje maior a distância destes álbuns relativamente aos fundamentos originais da “nova música improvisada”, aqueles provenientes do indeterminismo de John Cage e, sobretudo, Christian Wolff, do colectivo de compositores Wandelweiser, do onkyo japonês e da tendência lowercase da música por computador. Neles há um mais solto trabalho de dinâmicas e até é possível encontrar, entre as gerais abstracções, assumidos e convencionais tonalismos.

Não é Ernesto Rodrigues e o reducionismo que se estão a moderar ou a ceder aos usos instalados. Esta continua a ser uma das poucas áreas que mais inovações técnicas e de vocabulário têm trazido à música. Simplesmente, a prática reducionista libertou-se – sinal de maturidade – do peso que alguma inclinação dogmática nela estava a ter. Havia demasiadas proibições para que este tipo de improvisação fosse realmente espontâneo. Rui Eduardo Paes (Jazz.pt)

quarta-feira, 1 de abril de 2015

TODD McCOMB'S JAZZ THOUGHTS



photo: Ernesto Rodrigues, Carlos Santos, Nuno Torres & Guilherme Rodrigues

Although I described Sediment as "capping" 2014, and indeed it's the latest release I've added to my favorites for last year, there's still at least one more 2014 album to discuss in this space: Primary Envelopment by Wade Matthews & label curator Ernesto Rodrigues on Creative Sources, with Javier Pedreira & Nuno Torres. I didn't hear Primary Envelopment until recently, because I was waiting for the Creative Sources releases to come to USA, but that hasn't happened since the first half of last year — I don't know why. In any case, while having USA distribution is more convenient, between the vagaries of international shipping, and places like Squidco including things like recording dates & sound samples online, the recordings are & have been available straight from the label in Portugal, which is where I turned. I'm dwelling on this aspect a bit, because I'm concerned about people being able to hear the many interesting releases that Ernesto Rodrigues produces. Creative Sources has over 300 titles now (and I'll have to make another order for some of the latest), including many unique offerings. Indeed, I keep learning that a musician whom I "discover" only recently via other channels had a release on Creative Sources years ago. So that's impressive, and Rodrigues obviously has a great ear: The label has a reputation for a lot of similar releases, and Rodrigues's own blog does mention "refinement & restraint" and a focus on texture, but these qualities can make for vastly different results. The label also has quality design & packaging, even if their online information seems a little sparse (like the music?) at times. Todd McComb (medieval.org)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

SONIC SCOPE FESTIVAL 2015


photo: Ernesto Rodrigues & Carlos Santos

O segundo dia do Sonic Scope arrancou com um quarteto do patrão da editora Creative Sources, Ernesto Rodrigues (foto no topo), com Nuno Torres, Guilherme Rodrigues e Carlos Santos. Em modo reducionista, como estes músicos nos têm habituado, segundo o mote dado pelas várias culturas em que é sinal de sabedoria falar pouco ou em baixo volume. Qualquer guinchar de cadeiras ou chão, qualquer passo de alguém que estava no concerto errado a sair da sala se tornava música a acrescentar a este ensemble que vive tanto da sua precisão cirúrgica como das forças do acaso, criando melodias esquisitas nas entrelinhas (micro-pressão dos arcos, micro-oscilações do sopro, um ligeiro tremer de mão…). A electricidade de Santos foi o sistema sanguíneo a bombear a orquestra de quase mudos, enquanto as cordas evidenciaram bem a madeira de que são compostas e Nuno Torres voltou a demonstrar que o segredo para o melhor som do mundo se encontra na saliva. Bernardo Álvares (Jazz.pt)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A NOVA IMPROVISAÇÃO EM PORTUGAL OU A FRAUDE, A VERGONHA E O ENGANO


photo: Ernesto Rodrigues


[…] Ernesto Rodrigues, tem vindo, especialmente nas últimas duas décadas, a realizar uma obra ímpar no campo da edição de música improvisada (criou a sua própria editora), bem como a realização de concertos e gravações de música improvisada, em especial, na estética do Near Silence, com quem tocou e gravou com o fundador desta nova tipologia musical: Radu Malaffati.
[…] Se para uma determinada geração de improvisadores, os nomes de Carlos Zíngaro e de Jorge Lima Barreto, foram referências importantes para a sua actividade como improvisadores, recentemente esse papel de “Guru”, é preenchido por dois músicos na cena musical improvisada: Ernesto Rodrigues (que tem uma série de discípulos, a maior parte deles, não-musicos) e Sei Miguel (seguido por fiéis servos, também grande parte deles constituídos por não-músicos).
[…] Se Ernesto Rodrigues tem uma técnica instrumental que vai da clássica às mais avançadas técnicas instrumentais, já Sei Miguel, tem uma técnica própria de um auto-didacta e que como tal, se pôde dar ao “luxo” de aperfeiçoar o timbre em favor da técnica virtuosa. [...]  Vítor Rua (Algarve Hoje)

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

STARK BEWÖLKT KONZERTREIHE FÜR AKTUELLE MUSIK


photo: Ernesto Rodrigues with Nuno Torres and Nuno Morão

Ernesto Rodrigues + Nuno Torres
A Lisbon duo, viola and alto saxophone. The musical focus on exploration of sounds and textures. A non conventional instrumental language, playing with notions of timbre, plasticity and color. An aesthetic free form of improvisation within minimal approach. Nearing silence and privileging a close relationship with the acoustic space. An overall music experience of intimacy and detail.
(Stark Bewölkt)