sexta-feira, 10 de abril de 2015

ERNESTO RODRIGUES - REDUX MAXIMUS


photo: Ernesto Rodrigues, Nuno Torres & Guilherme Rodrigues

Ouvir os últimos registos do improvisador português que mais discos tem editados é observar a presente evolução da tendência de que é o principal representante neste país: o reducionismo. Em análise 14 títulos que revelam as novas características desta corrente e o papel que nelas está a ter o violetista de Lisboa.
Ernesto Rodrigues é o músico improvisador português que tem mais discos editados. A circunstância de ser o responsável de uma etiqueta, a Creative Sources, não é estranha a esse facto, como se torna evidente, mas a verdade é que a sua capacidade de produção parece inesgotável. E sendo ele o protagonista de uma das frentes da corrente reducionista, colocando Lisboa a par de Londres, Paris, Berlim, Tóquio e Beirute, as mais importantes, a quantidade e as características dos títulos que vai publicando permitem que fiquemos com uma perspectiva da própria evolução da tendência estética que, na improvisação, trocou o fraseado pelas texturas e as progressões harmónicas ou os modalismos por um foco no timbre sem tom definido.
Os registos aqui analisados são os seus mais recentes e demonstram bem que o igualmente chamado “near silence” está a sofrer transformações que não há muito julgaríamos improváveis. Uma, e talvez a que tem mais impacto, é a colocação de uma perspectiva de espaço em primeiro plano. Espaço preenchível em termos sonoros e projecção desses sons, espacialização, no local das performances, com a arquitectura, o meio, a definir o que se toca. Outra mudança detectável na música de Rodrigues em diversas formações é a repetição de elementos sónicos e, inclusive, sua articulação até formar uma sentença, algo que se considerava um tabu.
Reposto está igualmente o factor de dramatização com que se tinha cortado para contrariar os excessos expressionistas da “old school”: estão aí novamente as lógicas ascensionais, de clímax e de criação de atmosferas e estados de espírito. O que implica que voltou, também, o sentido de narrativa, por menos linear que esta seja. O reducionismo de Ernesto Rodrigues e dos seus parceiros aumentou de tamanho: é mais activo, mais atarefado. Mesmo que o volume se mantenha baixo, há muitas coisas a acontecer. Mas os próprios decibéis subiram – por vezes, estes desenvolvimentos da escola reducionista parecem encontrar-se com a noise music.
É hoje maior a distância destes álbuns relativamente aos fundamentos originais da “nova música improvisada”, aqueles provenientes do indeterminismo de John Cage e, sobretudo, Christian Wolff, do colectivo de compositores Wandelweiser, do onkyo japonês e da tendência lowercase da música por computador. Neles há um mais solto trabalho de dinâmicas e até é possível encontrar, entre as gerais abstracções, assumidos e convencionais tonalismos.

Não é Ernesto Rodrigues e o reducionismo que se estão a moderar ou a ceder aos usos instalados. Esta continua a ser uma das poucas áreas que mais inovações técnicas e de vocabulário têm trazido à música. Simplesmente, a prática reducionista libertou-se – sinal de maturidade – do peso que alguma inclinação dogmática nela estava a ter. Havia demasiadas proibições para que este tipo de improvisação fosse realmente espontâneo. Rui Eduardo Paes (Jazz.pt)

quarta-feira, 1 de abril de 2015

TODD McCOMB'S JAZZ THOUGHTS



photo: Ernesto Rodrigues, Carlos Santos, Nuno Torres & Guilherme Rodrigues

Although I described Sediment as "capping" 2014, and indeed it's the latest release I've added to my favorites for last year, there's still at least one more 2014 album to discuss in this space: Primary Envelopment by Wade Matthews & label curator Ernesto Rodrigues on Creative Sources, with Javier Pedreira & Nuno Torres. I didn't hear Primary Envelopment until recently, because I was waiting for the Creative Sources releases to come to USA, but that hasn't happened since the first half of last year — I don't know why. In any case, while having USA distribution is more convenient, between the vagaries of international shipping, and places like Squidco including things like recording dates & sound samples online, the recordings are & have been available straight from the label in Portugal, which is where I turned. I'm dwelling on this aspect a bit, because I'm concerned about people being able to hear the many interesting releases that Ernesto Rodrigues produces. Creative Sources has over 300 titles now (and I'll have to make another order for some of the latest), including many unique offerings. Indeed, I keep learning that a musician whom I "discover" only recently via other channels had a release on Creative Sources years ago. So that's impressive, and Rodrigues obviously has a great ear: The label has a reputation for a lot of similar releases, and Rodrigues's own blog does mention "refinement & restraint" and a focus on texture, but these qualities can make for vastly different results. The label also has quality design & packaging, even if their online information seems a little sparse (like the music?) at times. Todd McComb (medieval.org)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

SONIC SCOPE FESTIVAL 2015


photo: Ernesto Rodrigues & Carlos Santos

O segundo dia do Sonic Scope arrancou com um quarteto do patrão da editora Creative Sources, Ernesto Rodrigues (foto no topo), com Nuno Torres, Guilherme Rodrigues e Carlos Santos. Em modo reducionista, como estes músicos nos têm habituado, segundo o mote dado pelas várias culturas em que é sinal de sabedoria falar pouco ou em baixo volume. Qualquer guinchar de cadeiras ou chão, qualquer passo de alguém que estava no concerto errado a sair da sala se tornava música a acrescentar a este ensemble que vive tanto da sua precisão cirúrgica como das forças do acaso, criando melodias esquisitas nas entrelinhas (micro-pressão dos arcos, micro-oscilações do sopro, um ligeiro tremer de mão…). A electricidade de Santos foi o sistema sanguíneo a bombear a orquestra de quase mudos, enquanto as cordas evidenciaram bem a madeira de que são compostas e Nuno Torres voltou a demonstrar que o segredo para o melhor som do mundo se encontra na saliva. Bernardo Álvares (Jazz.pt)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A NOVA IMPROVISAÇÃO EM PORTUGAL OU A FRAUDE, A VERGONHA E O ENGANO


photo: Ernesto Rodrigues


[…] Ernesto Rodrigues, tem vindo, especialmente nas últimas duas décadas, a realizar uma obra ímpar no campo da edição de música improvisada (criou a sua própria editora), bem como a realização de concertos e gravações de música improvisada, em especial, na estética do Near Silence, com quem tocou e gravou com o fundador desta nova tipologia musical: Radu Malaffati.
[…] Se para uma determinada geração de improvisadores, os nomes de Carlos Zíngaro e de Jorge Lima Barreto, foram referências importantes para a sua actividade como improvisadores, recentemente esse papel de “Guru”, é preenchido por dois músicos na cena musical improvisada: Ernesto Rodrigues (que tem uma série de discípulos, a maior parte deles, não-musicos) e Sei Miguel (seguido por fiéis servos, também grande parte deles constituídos por não-músicos).
[…] Se Ernesto Rodrigues tem uma técnica instrumental que vai da clássica às mais avançadas técnicas instrumentais, já Sei Miguel, tem uma técnica própria de um auto-didacta e que como tal, se pôde dar ao “luxo” de aperfeiçoar o timbre em favor da técnica virtuosa. [...]  Vítor Rua (Algarve Hoje)

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

STARK BEWÖLKT KONZERTREIHE FÜR AKTUELLE MUSIK


photo: Ernesto Rodrigues with Nuno Torres and Nuno Morão

Ernesto Rodrigues + Nuno Torres
A Lisbon duo, viola and alto saxophone. The musical focus on exploration of sounds and textures. A non conventional instrumental language, playing with notions of timbre, plasticity and color. An aesthetic free form of improvisation within minimal approach. Nearing silence and privileging a close relationship with the acoustic space. An overall music experience of intimacy and detail.
(Stark Bewölkt)

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

CREATIVEFEST#8 AT ZDB


photo: Ernesto Rodrigues with Nuno Torres, Bruno Parrinha and Ricardo Guerreiro

Pelo terceiro ano consecutivo acolhemos o Festival Creative Sources, mostra superlativa do catálogo da influente e multifacetada etiqueta de música experimental improvisada, fundada por Ernesto Rodrigues..

Fundada pelo músico Ernesto Rodrigues em 1999, a Creative Sources é uma das mais importantes editoras a nível mundial no campo da música experimental e electro-acústica. Aproveitando a edição de ‘Caixa-Prego’ do Trio Bande à Part, acolhemos um festival exclusivamente dedicado a este catálogo.
Duas noites dedicadas ao fervor criativo da improvisação com uma sequência de espectáculos de diversas formações. Participarão neste evento nomes ligados à improvisação como Sei Miguel, Rodrigo Pinheiro, Bande à Part, Yaw Tembe e até mesmo o responsável da editora, Ernesto Rodrigues. (ZDB)

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

PRÁTICA E RECEÇÃO DA MÚSICA IMPROVISADA EM PORTUGAL: 1960 a 1980


photo: IKB Ensemble

Ernesto Rodrigues (n. 1959), violinista, constitui-se como outro exemplo de músicos improvisadores que iniciaram a sua atividade no final dos anos 70, início dos anos 80, com Carlos Bechegas e Jorge Valente, tendo sido influenciado pelo grupo Plexus, de Carlos Zíngaro. A sua linha estético-musical desenvolveu-se, no entanto, a partir de fundamentos distintos dos do free jazz, centrando-se na exploração de texturas sonoras acústicas e eletrónicas mais próximas da corrente denominada near silence180, tendo vindo a fundar a editora Creative Sources, em 1999, vocacionada para a música improvisada, e o grupo de improvisação Variable Geometry Orchestra, em 2000.
Manuel Guimarães (Tese de Mestrado)

TEMPORADA MISO MUSIC PORTUGAL EM RESIDÊNCIA NO IFP (2009)




photo: Ernesto Rodrigues and Neil Davidson

Concerto de música de câmara electroacústica para seis músicos, baseada em improvisação estruturada próxima da corrente estética "near silence" ou reducionista. A abordagem de cada músico aos diferentes instrumentos, neste caso, cordas acústicas e eléctrica, percussão, saxofone, trompete e electrónica, põe em evidência a exploração textural e sonora dos timbres em situações de micro-grupos ou em densidades e dinâmicas de conjunto, acentuando a sua relação com o espaço envolvente. Esta reunião de intérpretes/ compositores é protagonizada por Ernesto Rodrigues que desde há cerca de 20 anos se apresenta como um dos violinistas mais importantes do panorama musical português, abarcando diversos estilos, desde a música contemporânea, ao free-jazz, à música improvisada ao vivo e em estúdio. (Miso Music)

sábado, 15 de novembro de 2014

CREATIVE SOURCES 2012-2014: IMPROVISAÇÃO CONTÍNUA



photo: Ernesto Rodrigues with Nuno Torres and Nuno Morão


Ao leme da editora Creative Sources o violista Ernesto Rodrigues tem sido responsável pela construção de um arquivo sonoro que já se aproxima dos trezentos volumes. Fundada no ano de 2001, e actualmente já com 285 discos editados, a editora tem hoje em dia um catálogo fenomenal, verdadeiramente representativo daquilo que é a improvisação no século XXI. Especialmente associada ao reducionismo, a editora não se tem limitado a uma estética única, com algumas aproximações ao FREE jazz e à improvisação mais abrangente, promovendo sobretudo músicas que privilegiam o detalhe e o pormenor sonoro. Pelas edições da Creative Sources têm passado músicos portugueses essenciais (como Manuel Mota, Margarida Garcia, Hernâni Faustino, Rafael Toral ou Sei Miguel), além de figuras internacionais (como Peter Evans, Radu Malfatti, Oren Marshall, Rhodri Davies, Axel Dörner, Mazen Kerbaj, Dan Warburton, Urs Leimgruber, Tetuzi Akyiama, Christian Lillinger, Jean-Luc Guionnet, entre muitos outros). Na continuação ao TRABALHO de revisão da obra da editora (depois de termos passado pelos períodos de 2005-2006 e 2007-2010), fazemos agora uma recapitulação ao trabalho mais recente da editora, com uma selecção de álbuns editados nos últimos três anos, todos contando com a participação do violista e mentor da editora, Ernesto Rodrigues. A improvisação continua. Nuno Catarino (Bodyspace)

CREATIVEFEST#8


drawing: rita draper frazão


Alto nível

Com nove concertos divididos em três dias, na Galeria Zé dos Bois e na Igreja de St. George, o festival da editora Creative Sources juntou uma boa parte dos músicos activos na cena da improvisação em Portugal. O nível esteve sempre por cima.

Nos dias 7, 8 e 9 de Novembro aconteceu a oitava edição do Creative Fest, o festival da editora Creative Sources. Esta já se aproxima dos 300 títulos editados, numa linguagem de modo geral próxima do near silence, e alinhou para o efeito uma mescla de formações trabalhadas regularmente e outras em estreia absoluta, com concertos entre a ZDB e a Igreja de St. George, em Lisboa. 

Desordeiramente

A abrir o primeiro dia tivemos um trio constituído por Paulo Curado na flauta, Miguel Mira no violoncelo e João Madeira no contrabaixo. Mira e Madeira têm vindo a desenvolver uma proveitosa parceria, nomeadamente no projecto Sopa da Pedra, com a trompetista Hilaria Kramer. A dupla de graves em festa apresentou-se desta vez com Curado, evidenciando uma sólida união entre estes músicos. Numa actuação algo curta, o trio apresentou-se coeso sobre um pulsar comandado por Mira e seguido desordeiramente pelos restantes elementos.

De seguida tocaram Albert Cicera nos saxofones, Hernâni Faustino no contrabaixo e Rodrigo Pinheiro na electrónica. Todos os concertos do festival, com mais ou menos decibéis, se enquadraram numa linguagem abrangente associada ao experimentalismo e à improvisação. Sem fugir a esse género alargado, esta actuação evocou o seu quê de “chill out”, banhando a Galeria Zé dos Bois com um “feeling” de praia no Inverno, talvez muito por culpa de Pinheiro.

O também pianista criou uma envolvência electrónica a lembrar o som de ondas no mar. Se Rodrigo Pinheiro foi a maré, as cordas granosas do contrabaixo de Faustino foram a areia. O sopro de Cicera foi o vento carregado de maresia salgada, ora mais contido, ora num final mais melódico e expansivo, como se John Lurie estivesse em São Pedro de Moel num dia mau de Dezembro.

O terceiro de quatro concertos do primeiro dia contou com José Bruno Parrinha no clarinete, Yaw Tembe no trompete e Guilherme Rodrigues no violoncelo. Foi o concerto mais reducionista do dia, com momentos de evidente tensão silenciosa. Rodrigues é peixe dentro de água neste registo, ao contrário de Parrinha e Tembe, que por vezes resvalavam para zonas mais cinzentas. O som geral ganhava sempre que havia cedências no braço de ferro idiomático e ou se assumia a contenção ou se libertavam os sopros para cenários em que pudessem cantar à vontade.

O último concerto da noite era também o mais esperado. A sala encheu-se para ouvir os Bande à Part a comemorar o lançamento do seu primeiro disco, “Caixa Prego”. A banda é constituída por Joana Guerra no violoncelo, Ricardo Ribeiro nos clarinetes e Carlos Godinho na percussão. Tocando num registo a respirar sangue e ideias novas e contendo em si todos os ensinamentos retirados da velha guarda da improvisação portuguesa, este trio reúne o melhor de dois mundos.

Excluindo o prolífero e eterno duo de Sei Miguel e Fala Mariam, os Bande à Part foram o grupo mais continuado de todo o festival, e isso ouviu-se, distanciando-os das formações ad-hoc. O conhecimento mútuo e os papéis complexos e mutáveis bem definidos entre os três fazem deste um dos projectos mais sólidos e interessantes da cena actual de música improvisada em Portugal. Mereciam um lançamento de disco com mais destaque, embora se tenham inserido muito bem na programação deste Creative Fest. 

Do caos ao xadrez

O segundo dia de concertos na ZDB começou com um duo do percussionista José Oliveira e da cantora Maria Radich. Para além de uma panóplia de pequenos objectos sobre um timbalão de chão, o primeiro usou uma concertina, “field recordings” e um balde com água. Mesmo com as luzes reduzidas, esta não deixou de ser uma apresentação muito visual, com Oliveira a multiplicar-se entre instrumentos com grande presença cenográfica e Radich, também bailarina, a usar o corpo como complemento natural da voz. Qualquer um dos três duos da noite se poderia dividir entre yins e yangs: neste caso, José Oliveira estaria remetido a um papel de natureza na sua busca por um caos inato e Maria Radich emprestava a sua voz a civilizações inteiras.

Sei Miguel (trompete) e Fala Mariam (trombone) reinterpretaram de seguida o tema “Asterion”, peça escrita e estreada em 1999 e parte do disco “Ra Clock”, cuja interpretação conta com os músicos Monsieur Trinité e Paulinho Russolo, para além de Miguel e Mariam. Sei Miguel introduziu a peça com uma explicação: o minotauro (Asterion – meio homem, meio animal, meio divino) condenado a passar a sua vida a percorrer um labirinto é mais representativo da condição humana do que o herói que o mata.

O trompete, enquanto instrumento associado à tourada, tem nesta peça um papel ambíguo. O ataque das notas de Sei Miguel representa tanto a melodia de um Teseu toureiro celeste, como a complexidade associada à existência da criatura mitológica. Já o trombone é um yin assumido da escuridão monstruosa do minotauro, o bom diabo. O não-jazz de câmara mediterrânico ali ouvido deixou-nos a chorar por mais.

Seguiu-se um duo de electrónicas, por João Silva e Carlos Santos. Sentados frente a frente, utilizando uma mesma mesa de mistura e objectos amplificados, remeteram-nos para um cenário bergmaniano no qual ambos jogavam xadrez contra a morte. Se Santos pode ter uma propensão para os sons inorgânicos, Silva trouxe consigo uma bagagem cheia da filosofia e da sonoridade asiáticas. O jogo de xadrez acabou empatado entre a musique concrète e o “drone”.

Sugerem os estudiosos desta matéria que a música surgiu com a repetição dos ritmos dos passos, das enxadas a cavar e do grito transformado em canto. Ritmo e melodia organizados de acordo com padrões reconhecíveis. Ora, aquilo que se pôde ouvir neste festival em geral e no último concerto do segundo dia em particular foi uma organização sonora de acordo com pormenores do mundo audível que poderão facilmente passar despercebidos. O trio composto pela principal figura da Creative Sources, Ernesto Rodrigues, na viola, Nuno Torres no saxofone alto e Nuno Morão na tarola explorou, sobretudo, esse mundo de subtilezas.

Aquilo que poderá passar por estranheza para a maioria talvez o seja devido à falta de atenção àquilo que nos rodeia. Por essa ordem de ideias, Torres parecia saído de outro planeta, emanando sons para os quais não há onomatopeias satisfatórias. Mestre na arte da tensão, Rodrigues geriu pacientemente as suas intervenções. Não haverá muitos percussionistas à altura da ingrata e difícil tarefa de acrescentar alguma coisa num registo reducionista, mas Morão foi responsável por muita da cor ouvida no último concerto a ocorrer na ZDB. 

Rhinocerus

Ficou guardado para a Igreja de St. George o último concerto do Creative Fest, com o IKB Ensemble, também a comemorar o lançamento de um CD, “Rhinocerus”, gravado ao vivo no Panteão Nacional. O colectivo reuniu 18 músicos, a saber Ernesto Rodrigues, Marian Yanchyk, Guilherme Rodrigues, Miguel Mira, José Oliveira, Maria Radich, Bruno Parrinha, Paulo Curado, Nuno Torres, Yaw Tembe, Eduardo Chagas, Gil Gonçalves, Abdul Moimême, Armando Pereira, Rodrigo Pinheiro, Carlos Santos, João Silva e Nuno Morão. A maioria dos membros do IKB participou nas formações que tocaram nos dias anteriores do festival.

Mais do que um grande número de pessoas a tentar tocar pouco e baixinho, este “ensemble” quase-near-silence primou pelas dinâmicas estereofónicas que causam um imenso impacto. Embora com poucos devotos na igreja, o naipe de instrumentistas muito rico em timbres cumpriu com PROFISSIONALISMO e sentido de compromisso um bom concerto, que esperemos que resulte em mais uma edição Creative Sources. Bernardo Álvares (Jazz.pt)

segunda-feira, 26 de maio de 2014

ALG-A LAB - VIGO


photo: Ernesto Rodrigues with Maria Radich

Ernesto Rodrigues é un dos grandes nomes da improvisación electroacústica (http://rateyourmusic.com/genre/EAI/). A súa práctica privilexia o imprevisible a partir do encontro creativo con outros músicos nos máis diversos contextos. O seu extenso traballo está sobre todo documentado en Creative Sources, editora que inicou en 2001 e que é hoxe unha das máis relevantes do panorama internacional. Ricardo Guerreiro (ordenador) colaborou regularmente con ER ao longo dos últimos anos sexa en grupos como IKB ou en formacións máis reducidas ao lado de nomes como Axel Dörner ou Radu Malfatti. O saxofonista Bertrand Gauguet, un dos músicos máis interesantes e activos da actualidade, visita a península ibérica para unha pequena serie de concertos con este trío, que ten inicio en Galicia e pasa polo Porto antes do concerto final no Panteón Nacional en Lisboa. (Alg-a Lab) 

terça-feira, 20 de maio de 2014

CREATIVE SOURCES APRESENTA O SEU FESTIVAL


photo: Ernesto Rodrigues

A editora lusa Creative Sources, que celebrou o seu 100º lançamento com a edição do disco "Stills" da Variable Geometry Orchestra, apresenta o seu festival. No sábado, dia 10, a partir das 21h00, a Bomba Suicida (na Rua Luz Soriano, ao Bairro Alto) acolhe o festival Creative 01. Nesta noite será apresentada uma sequência de espectáculos de 13 duos, que actuarão cerca de dez minutos cada um. Participarão neste evento nomes ligados à improvisação como Adriana Sá, Davia Maranha, Rodrigo Amado, Sei Miguel, Hernâni Faustino, Peter Bastiaan, António Chaparreiro, Luís Lopes, Eduardo Chagas e até mesmo o responsável da editora (e da iniciativa), Ernesto Rodrigues. Nuno Catarino (Bodyspace)

CREATIVE SOURCES RECORDS


photo: Ernesto Rodrigues with Nuno Torres


Creative Sources Records, based in Portugal, was conceived in 1999 by violist/composer Ernesto Rodrigues as an outlet not only for his own work but for the kind of challenging, non-commercial music that appealed to him. The label originally released work by new music improvisers from Portugal and Spain, many but by no means all of them featuring Rodrigues. The label now issues work by musicians from both hemispheres and has put out fine performances not only by Rodrigues and his cellist son Guilherme, but also by Radu Malfatti, Mike Bullock, Axel Dörner, Ricardo Guerreiro, Gino Robair, Udo Schindler, Raed Yassin and many others.

Rodrigues came to adventurous improvisational music in the 1970s, a time when he listened to free jazz, the post-war avant-garde art music of Ligeti and Stockhausen, and the experimental work of Morton Feldman and John Cage. And one can hear in his music the influence of these latter two composers, particularly in the generally quiet dynamics and the ascendency of timbre over pitch that characterize much of his playing.

Although Creative Sources releases a diverse range of approaches to electro-acoustic improvisation, it does have an identifiable aesthetic. There are exceptions, of course, but an archetypal Creative Sources release will more likely than not contain sound art of refinement and restraint—qualities that summarize Rodrigues’ own playing quite well. In general the music texturally focused, developing gradually through nuanced shifts in shading, density and dynamics.

Several of Creative Sources’ recent releases serve as a good sampling of the label’s approaches to defining and exploring its particular aesthetic of improvisational sound art. Daniel Barbiero (Percorsi Musicali)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

FESTIVAL CREATIVE SOURCES 2013: CAGE ESTAVA LÁ




photo: Ernesto Rodrigues with IKB Ensemble


A ZDB recebeu mais uma vez o evento anual da improvisação reducionista nacional. Com algumas situações a saírem para fora desse enquadramento, ouviu-se música silenciosa e, a meter-se dentro dela – John Cage teria ficado deliciado –, o ruído das sempre festivas noites do Bairro Alto. Aqui ficam as imagens…
Durante dois dias, com um total de seis concertos, a editora discográfica portuguesa Creative Sources – rival da Clean Feed na quantidade de edições (cerca de 250) e na variedade internacional do seu catálogo – teve mais uma edição do seu festival. Decorreu a 4 e 5 de Outubro no Aquário da ZDB, em Lisboa, com uma programação que, uma vez mais, incidiu sobre a corrente “near silence”, com a música reducionista no interior a debater-se com o ruído que vinha da noite do Bairro Alto.
Excepção foi o Wind Trio de Paulo Chagas, Paulo Curado e João Pedro Viegas, ainda no rescaldo da edição de “Old School, New School, No School”, que enveredou por uma improvisação mais próxima do jazz…
O evento fez-se com a nata da casa organizada em várias formações, uma delas um ensemble mais alargado, com 11 elementos, e dois convidados especiais, o saxofonista soprano Christophe Berthet e o trompetista Louis Laurain.
Abdul Moimême e Eduardo Chagas tocaram em duo, Carlos Santos fez um solo e Ernesto Rodrigues, o responsável da Creative Sources, surgiu em dois contextos, à frente da orquestra e em quarteto com Guilherme Rodrigues, Ricardo Guerreiro e o referido Laurain. Por lá passaram também Maria Radich, Nuno Morão, José Oliveira, Bruno Parrinha, António Chaparreiro, Miguel Mira e Yaw Tembe, músico suazi radicado em Lisboa. Nuno Marins (Jazz.pt)

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

MÚSICA GESTUAL


photo: Ernesto Rodrigues

O gesto tem cada vez maior importância na música do violetista português, e é por essa via que a sua improvisação reducionista está mais próxima dos conceitos aplicados na chamada noise music. Pois oiçamos os seus nove discos mais recentes…

A ideia de gesto nas artes tem um duplo atributo – respeita tanto ao resultado (uma pincelada, um som) como ao movimento que o produziu. Regra geral, porém, o que o apreciador da obra artística percepciona é a realização sem o movimento, sendo este apenas imaginado. E é neste ponto que se introduz um elemento desorientador, pelo menos no que à música diz respeito: há sequências sonoras que entendemos como gestuais, pelo modo como nos surgem na audição de um disco (regra geral, num concerto vemos o que ouvimos), mas dificilmente visionamos como foram realizadas – acontece tal, sobretudo, nas criações electroacústicas que aplicam os princípios do concretismo, com a anulação da “causa sonoris” para uma totalmente autónoma vivencialidade do som.

Se poderíamos dizer, assim sendo, que o desconhecimento da fisicalidade do gesto anula o seu efeito perceptível, o certo é que tal não acontece. Na música, a própria fisicalidade do som basta para concluirmos dessa abordagem gestual. Há um movimento intrínseco e uma imaginação do movimento, ainda que esta seja imprecisa. Os conceitos instalados quanto ao gestualismo sonoro têm como quadro a música escrita de tradição académica, vulgo “clássica” – o gesto está predefinido, restando apenas ser realizado em cada performance. Esse gesto pode ter uma curta duração, mas não é efémero. A notação estipula que se repita.

Quando se trata de música improvisada, prática iminentemente performativa, não há previsão e muito provavelmente também não haverá repetição. Nem por isso a importância do gesto se relativiza face à consequencialidade do som: este aconteceu e foi determinante para a trama que se desenvolve, mesmo que o seu momento passe depressa, para não mais voltar. Se essa improvisação é gravada, reencontramo-lo. O gesto musical improvisado pode ser fugaz, mas é tão efectivo quanto algo que cuidadosamente se coreografe.

Ernesto Rodrigues é um músico gestual e um improvisador, e a diferença que o seu gestualismo improvisado tem com o gestualismo clássico não está somente na inexistência de uma partitura que lhe conduza os movimentos. É a forma como utiliza o instrumento que define esse corte com a previsibilidade. Os sons que produz nem sequer são possíveis de notar, pelo menos convencionalmente – na maior parte dos casos não se trata de notas, ou seja, sons musicais, e sim de ruídos (por definição: sons “sem significado”) provocados pela manipulação de todo o corpo da sua viola (também da harpa, que toca em dois dos títulos aqui referidos, e da armação interior do piano).
Ora, o ruído consegue ser bem mais gestual do que um som temperado, um tom. Quando ouvimos um raspanço, imaginamos algo a raspar. O som é o gesto, o gesto é o som. Mas atenção: não é necessariamente uma unha sobre a madeira da viola que nos vem à mente. As possibilidades imagéticas são imensas, dando a este tipo de improvisação um carácter cinemático sem igual. Daí decorre que tanto a estética reducionista, tendência em que Rodrigues se insere, como a chamada “noise music” – também ela muito frequentemente improvisada – sejam ambas músicas gestuais, e exactamente pelos mesmos motivos. Nesse aspecto, pouca diferença faz que no reducionismo se proceda ao “close miking” do sussurro e que no noise se explore esse excesso de sinal sonoro a que se chama “feedback”.

O interessante nesta similitude de posicionamentos é o facto de a corrente reducionista estar gradualmente a assumir-se como uma música noise, uma música de ruído. O volume será, sem dúvida, consideravelmente mais baixo do que qualquer coisa que Merzbow e Pita façam, mas longe estão os lançamentos de que aqui damos conta da ortodoxia “near-silence” de há uns anos. 
[…] Ernesto Rodrigues vem colocando importantes deixas para análise no que respeita à estética reducionista, à utilização do ruído e à gestualidade da música. Basta ouvir com atenção e tirar as ilações…
Rui Eduardo Paes (Jazz.pt)

domingo, 30 de dezembro de 2012

CS



photo: Ernesto Rodrigues with Antez

Creative Sources a acquis la réputation de livrer à nos oreilles une avalanche d'enregistrements "radicaux" d'improvisation rédutionniste- expérimentale. On a découvert Bertrand Gauguet, Mazen Kerbaj, Birgit Uhler, Ruth Barberan, Jean-Luc Guionnet. Jason Kahn, Leonel Kaplan, Sharif Sehnaoui, Wade Matthews et Ernesto Rodrigues, bien sûr, ... etc etc ... et aussi des artistes tout à fait méonnus. Dans la masse, on avait l'impression que les perles étaient un peu noyées. Plus récemment, un quartet de Phil Minlon, Thomas Lehn, Ute Wassermann ct Martin Blume nous donnait à entendre de l'impro libre "traditionnelle" (si je peux m'exprimer ainsi).
Il semblerail que cette tradition revient en force dans le catalogue CS. On se croirait chez Emancm ou FMP.
 Jean-Michel van Schouwbourg

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

CREATIVE SOURCES


photo: Ernesto Rodrigues with Guilherme Rodrigues

Soyons francs : le label Creative Sources est un label ouvert et novateur et il présente des co-productions d'artistes d'horizons très variés après avoir été le réceptacle de démarches innovantes dans l'improvisation radicale. C'est à la fois une mine de trésors, une collection intéressante de projets mûrement réfléchis, un portefeuille de cartes de visites, les témoignages d'associations momentanées et d'instants fugitifs. J'ai essayé de retracer des albums qui me semblent mériter le détour parmi les dizaines de productions récentes ou plus anciennes (230 numéros au catalogue). Plus anciennes car il y a sûrement des choses qui nous échappent. Note : cette page - ci sera complétée. Jean-Michel van Schouwbourg

sábado, 15 de dezembro de 2012

Todd McComb's Jazz Thoughts


photo: Ernesto Rodrigues with Christian Wolfarth

[...] Earlier this year, I noticed the Creative Sources label for the first time, via the new release listings at Squidco. This label has a distribution association with Clean Feed, was started at the same time, and is almost as prolific. However, Creative Sources is directed by Portuguese violist Ernesto Rodrigues (b.1959), and a large portion of the catalog includes his playing. Rodrigues' work exemplifies some of the discussion above, in that it's a free-form and often slowly moving exploration of texture between sometimes unusual instrument combinations. There is a sense of sonic tapestry perhaps, but definitely a close sense of timbral relationships between sounds and very detailed listening experiences both between the musicians and for the audience. Rodrigues is involved in so many recordings, it's difficult to know where to start, but I've been listening to a couple from 2011, particularly Le Beau Déviant featuring Heddy Boubaker on saxophone and Abdul Moimême on prepared electric guitar. [...]  Todd McComb

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

NEAR SILENCE


photo: Ernesto Rodrigues with Christian Wolfarth and Ricardo Guerreiro

 [...] Para saber da existência ou não da existência de uma comunidade em Portugal de músicos a praticarem este estilo musical, resolvi entrevistar por e-mail, dois músicos improvisadores, residentes em Portugal e ir assistir a dois concertos destes músicos. O primeiro concerto que assisti - Carlos Zíngaro (violino), Pedro Carneiro (vibrafone) e Carlos santos (laptop) teve partes de near silence e o concerto foi regido (nesses momentos de near silence) pelas técnicas da “threshold music”. Já o concerto dirigido por Ernesto rodrigues, foi um bom exemplo de near silence. Houve uma gestão inteligente do silêncio e todo o evento transmitia ao ouvinte, uma sensação de plenitude e relax. Ernesto Rodrigues (violino, viola, objectos, metrónomo) era um condutor das texturas subliminais que emergiam ao som circundante do palco (o concerto realizou-se na LX Factory e por vezes ouvia-se o som das pessoas que preferiram estar no café a assistir ao concerto); Guilherme Rodrigues (violoncelo, metrónomo) e Nuno Torres (saxofone alto, metronomo), intervinham muito espaçadamente e usando advanced thecnics no uso dos seus instrumentos. Gil Gonçalves (tuba, metrónomo) usava o espectro sonoro dos harmónicos e formants, para criar um som quase “fantasmagórico”. Abdul Moimeme (guitarra eléctrica, metrónomos) tocava em duas guitarras expostas paralelamente uma à outra e com uma tira de metal (usando-a como um arco de violino) conseguia obter som simultâneo de ambos os instrumentos. José Oliveira (percussão, metrónomo) usou inicialmente o piano como instrumento de percussão (usando baquetas diversas), para posteriormente ir para um kit incompleto de bateria. carlos Santos usou durante todo o concerto, o laptop de forma quase inaudível, criando texturas abstractas imperceptíveis. Por vezes - tal era o silêncio que pairava no palco - ouvia-se mais os sons provindos do café do andar de baixo, do que as paisagens sonoras que provinham dos músicos. Este espectáculo foi integralmente gravado directamente para um computador Mac, usando o software pro tools e as entrevistas realizadas por e-mail.

[...] Para o improvisador Ernesto Rodrigues - introdutor desta tipologia em Portugal - o near silence é “a resposta mais objectiva e contundente ao mundo desordenado, caótico e ruídoso em que vivemos. Digamos que faz o contraponto com a rudeza da realidade dos nossos dias. O estilo pode ser caracterizado pela percepção do silêncio ou seja, a consciencialização do mesmo, que se traduz também na economia dos sons – reducionismo”. 


[...] Ernesto Rodrigues diz que:“embora se utilizem menos notas (e notas são todo e qualquer som), por outro lado os instrumentos são explorados integralmente, o que se traduz numa panóplia sonora muito mais rica e vasta. Logo, pode-se afirmar que sonicamente os instrumentos são cirurgicamente analisados o que se traduz nas chamadas “extended technics”. A tudo isto é necessário acrescentar um doseamento equilibrado entre som/ruído e silêncio”.


[...] Quis saber de seguida se em Portugal se podia falar da existência de uma comunidade de músicos praticando este estilo musical. Perguntei a Ernesto Rodrigues se ele se considerava de algum modo o pioneiro desta linguagem por cá, e ele respondeu-me assim: “De facto antes de mim, não tenho notícia de que alguém o tenha feito (em Portugal). Mesmo a nível internacional penso que o meu cd “Self Eater and Drinker” (projecto iniciado em 1997), aponta já para muitas das soluções que coetaneamente podíamos observar nas práticas mais representativas desta estética, tais como as escolas de Viena, Londres, Tokio, Berlim, Boston, etc. Nos ultimos 10 anos, tenho tido a preocupação de veicular estas ideias a alguns músicos de Lisboa que penso poderem desempenhar esta funçao com “agilidade” e competência. Fundei o grupo SUSPENSÃO que integra 8 elementos e que está direccionado exclusivamente para esta corrente estética”.


[...] Eu acredito que existe, na realidade, toda uma comunidade de músicos de diversas áreas e de diferentes povos, a fazerem near silence e que este é um estilo musical com características próprias. A forma como usam o silêncio e como o abordam, é uma idiossincrasia desta música. Em Portugal, curiosamente, só encontramos vestígios de músicos a praticarem esta música em Lisboa, o que não terá sido alheio o facto de Ernesto Rodrigues ou Carlos Zíngaro, residirem em Lisboa e um deles - Ernesto Rodrigues - dirigir uma editora de discos, onde publica obras deste género musical e o outro - Carlos Zíngaro - ser um dos músicos mais requisitados para actuar no estrangeiro com nomes cimeiros da música improvisada. Vitor Rua

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Festival MIA


photo: Ernesto Rodrigues with Nuno Torres and Ricardo Guerreiro


Foi completamente distinta a prestação de Ernesto Rodrigues, Nuno Torres e Ricardo Guerreiro, merecendo também a entusiasmada aprovação da assistência. No limiar do silêncio, o concerto  só não se aproximou inteiramente do reducionismo, tendência com que está conotado Rodrigues, porque não houve economia de sons. Estavam, no entanto, todos os demais ingredientes desta tendência da improvisação, como a aplicação de técnicas extensivas para o manejo dos instrumentos convencionais em presença, a viola e o saxofone alto, e uma cuidada gestão das texturas, sobretudo por parte do "laptop". A trama urdida requereu a máxima concentração e o certo é que só se notavam os ruídos do exterior: a sala estava muda e expectante. Rui Eduardo Paes

Festival Música Viva (2)


photo: Ernesto Rodrigues with Radu Malfatti and Ricardo Guerreiro

O segundo programa da noite, “Improvisação”, foi verdadeiramente inesperado. O trio, composto por Ernesto Rodrigues (viola), Radu Malfatti (trombone) e Ricardo Guerreiro (computador), executou uma improvisação baseada nos sons do silêncio. Num concerto em que a componente visual complementou  e reforçou a componente auditiva – ambas extremamente estáticas, com os instrumentistas praticamente imóveis do início ao fim da improvisação, assim como a evolução extremamente lenta de qualquer gesto musical executado –, acabou por existir uma ausência de tempo linear dos acontecimentos. Deixou-se, a dada altura, de ter a referência do que teria sido o início, o meio ou até o fim, existindo por isso uma nova conceção de tempo, lento, parado em si mesmo, quase como um instante que se repete e varia.
Entre os sons da respiração, o som eólio do trombone, as intervenções minimalistas da eletrónica e os tremolos da viola em pppp e em registos extremamente agudos, criou-se uma atmosfera musical que se traduziu num diálogo “mudo” entre o ensemble, o espaço e o público, em que tudo – até o silêncio - se transformou na improvisação deste trio. Tiago Cabrita

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Luso-Scandinavian Avant Music Orchestra


[...] É a nata de duas coincidentes realidades “a Sul” que encontramos, pois, neste concerto da Luso-Scandinavian Avant Music Orchestra. Sob a direcção de Raymond Strid (bateria, percussão), David Stackenas (guitarra), Sture Ericson (saxofones tenor e barítono, clarinete, clarinete baixo), Per Zanussi (contrabaixo), Per-Ake Holmlander (tuba) e Sten Sandell (piano, harmonium, sintetizador, voz) associam-se a Rodrigo Amado (saxofones alto, tenor e barítono), Nuno Rebelo (guitarra eléctrica), Ernesto Rodrigues (viola), João Paulo Esteves da Silva (piano, piano eléctrico, acordeão) e Gabriel Ferrandini (bateria) para uma improvisação colectiva que será, com certeza, um sinal das transformações que estão a processar-se a bem da música e de quem a ama, em igualdade de capacidades e circunstâncias, numa perspectiva de saudável cooperação. Um momento histórico, em suma. Rui Eduardo Paes

sábado, 22 de setembro de 2012

FESTIVAL MÚSICA VIVA




photo: Ernesto Rodrigues with Radu Malfatti and Ricardo Guerreiro


Na edição de 2012 do Festival Música Viva, esta quinta-feira, 21 de setembro, na Sala de Ensaios do Centro Cultural de Belém, em estreia absoluta, apresentou-se o trio de Ernesto Rodrigues (ER), Radu Malfatti (RM) e Ricardo Guerreiro (RG). Ao longo de cerca de três quartos de hora, o trio patenteou uma espantosa capacidade de criar e elevar a tensão, preservando a chama lenta, de baixa intensidade, reducionista mas calorosa. Assinalável, o modo como a música evoluiu a partir de um mínimo de atividade sonora, zonas cinzentas, silêncio espetral, pigmentos luminosos em suave justaposição. Mínimo, à superfície, porque mergulhado o ouvido nas profundezas do silêncio entre sons, descobriu-se uma energia subliminar latente nas camadas inferiores, um mundo insinuante de infinitas combinações, empoladas pela sucessão de amplos silêncios, tonalidades quentes das texturas do trombone (e tubos) de RM, detritos electrónicos e processamento sonoro de RG, e das práticas e procedimentos heterodoxos da viola de ER, longe dos sons e timbres tradicionais do instrumento – em torno de um núcleo essencial de subtileza, serenidade e contemplação. Um concerto para fruir em máxima concentração, tarefa que se revelou difícil para os não iniciados nas instâncias da improvisação electroacústica moderna (reducionismo e desenvolvimentos posteriores), já que parte do público não parava sossegada na cadeira (eléctrica!), qual bicho-carpinteiro irritante, entretido a fazer ranger o mobiliário e a sofrer de constipações impertinentes. Apesar dos ruídos parasitários "estranhos ao serviço", assistiu-se à construção em tempo real duma música de ínfimos detalhes ("coisas inconsideráveis", Rilke), que vale tanto pelo que "diz", reelaborando sobre texturas e materiais sonoros aditados e subtraídos, como pelo que "cala", entre deixas, intervalos, nuances e reverberações. O resultado foi a criação de um universo de complexas e inusitadas dinâmicas, capaz de transportar o espectador para longe, graças a um complexo de imagens sonoras desafiantes da audibilidade e, ao mesmo tempo, estimulantes da imaginação. Eduardo Chagas (Jazz e Arredores)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

IKB CHIADO MUSEUM CONCERT


photo: IKB Ensemble

O IKB (entenda-se International Klein Blue) trata-se de uma formação alargada orientada pelo incontornável músico e editor Ernesto Rodrigues, que inclui alguns dos mais relevantes músicos da Grande Lisboa a trabalhar nos domínios da improvisação, da electro-acústica, electrónica, jazz e novas músicas, cruzando várias gerações e áreas de instrumentação (cordas, sopros, electrónica e percussão).
Ernesto Rodrigues tem feito ao longo dos últimos anos um dos trabalhos mais importantes da história da indústria discográfica nacional, com o espantoso catálogo da Creative Sources, volta aqui ao assunto da grande orquestração colectiva, depois dos largos e frutuosos anos com a emblemática Orquestra VGO.

É também neste dia que estará pela primeira vez disponível para venda o registo de estreia deste ensemble (aqui com o convidado especial Paulo Raposo – a perfazer um total de 15 músicos), ‘Monochrome bleu sans titre’, numa evocação ao artista plástico Yves Klein, e ao seu célebre e patenteado pigmento azul.
Esta actuação foi concebida para ser realizada sem P.A., utilizando o domínio destes músicos da dinâmica e da actividade e inactividade sonora, para um concerto que será puramente em acústico.
Filho Unico

sexta-feira, 6 de julho de 2012


photo: Ernesto Rodrigues with Monsieur Trinité and Nuno Torres

Resumindo e concluindo: a Creative Sources continua a ter uma importância fundamental, a nível planetário, na difusão das mais radicais práticas da improvisação. Pode não constar nos "tops" das preferências do jornalismo musical, nem ter grande sucesso comercial, mas se a editora não existisse, provavelmente muita desta música também não. Rui Eduardo Paes
photo: Ernesto Rodrigues with Ricardo Guerreiro and Nuno Torres

Em Portugal, não foram apenas as editoras Clean Feed e TOAP que comemoraram o seu 10º aniversário: também a Creative Sources chegou à pré-adolescência. Com menos mediatismo, é certo, mas isso porque a "label" de Ernesto Rodrigues lança para o mercado discos de mais difícil consumo auditivo. Designadamente, de figuras das novas tendências da improvisação livre e do experimentalismo electroacústico, tendo nestas áreas granjeado o estatuto de mais importante veículo de difusão, a nível internacional. Ouvimos os 16 mais recentes títulos de um catálogo que já vai longo e cheio de "musts"… Rui Eduardo Paes

sábado, 16 de julho de 2011

O MIA 2011 na imprensa especializada
















photo: Ernesto Rodrigues with Gianna de Toni and Carlos Medeiros



[...] Da estética "near-silence" partiram igualmente os Rodrigues pai e filho, respectivamente em viola e violoncelo, e a contrabaixista italiana, mas radicada em Ponta Delgada, Gianna de Toni, se bem que evoluindo para situações conotáveis com a música contemporânea, aqui ou ali evocando um Salvatore Sciarrino e um Helmut Lachenmann. Abordagens extravagantes das cordas e das madeiras dos instrumentos, com os arcos, os dedos ou objectos vários, expandiram as possibilidades de execução, e nada foi excluído das lógicas aplicadas – em meio ao abstraccionismo geral, uma micromelodia em repetição ganhou especial efeito, denotando um sentido de oportunidade e uma inteligência construtiva admiráveis. [...] Rui Eduardo Paes