quarta-feira, 16 de junho de 2010

















Photo: Ernesto Rodrigues with Gail Brand, Abdul Moimeme and Monsieur Trinité


A alegre confusão da Variable Geometry Orchestra
Assistimos aos preparativos e a um concerto de uma orquestra rara no mundo. Nunca ensaia e tem uma formação sempre diferente. Faz “música improvisada contemporânea”, explica o mentor, Ernesto Rodrigues.
Já passam das seis da tarde de sexta-feira, 12 de Outubro, quando os membros da Variable Geometry Orchestra (VGO) começam a preparar o soundcheck na sala 2 da Casa da Música. Chegam em pequenos grupos, com instrumentos às costas e vão-se instalando. A maioria veio de camioneta, meio de transporte adequado para trazer de Lisboa cerca de trinta membros. Um pequeno grupo de músicos é do Porto, que se estreiam nesta orquestra peculiar, sem paralelo em Portugal e rara no mundo. Ao todo, 33 pessoas subiram ao palco da sala 2. Não ensaiaram para o concerto – aliás, a orquestra nunca tem ensaios.
Pensada e comandada por Ernesto Rodrigues, improvisador e compositor experimental com 30 anos de carreira, a VGO faz algo de único: une diferentes expressões das músicas experimentais, do pós-free jazz, à electrónica, à música contemporânea. Não é uma orquestra de free jazz, nem de electrónica (como a MIMEO), mas é tudo isso e mais ao mesmo tempo. Faz “música improvisada contemporânea”, resume Ernesto, em conversa com o Ípsilon na cantina da Casa da Música, uma hora antes de entrar em palco.
“Este é um projecto de uma envergadura quase megalómana e que tem uma certa importância. Reúne a nata da improvisação nacional – nem é a nata: é o leite, é quase tudo”, diz, sem falsas modéstias, o mentor da orquestra, fundada em 2000. Nos anos 70, Ernesto chegou a tocar com José Afonso, Fausto, Sérgio Godinho e Jorge Palma, mas começaria a desenvolver pouco depois a sua paixão por compositores como Ligeti e Stockhausen.
Em cada concerto, a VGO apresenta-se com uma formação e dimensão diferentes (peças de várias actuações estão registadas no triplo “Stills”, disco de estreia da VGO agora editado). Tanto podem ser 15, como 20, como até 40 ou mais. Ernesto é o único membro fixo, mas músicos como o violoncelista Guilherme Rodrigues (filho de Ernesto, com apenas 19 anos) e o baterista José Oliveira têm marcado presença regular nos concertos da orquestra que se tem apresentado sobretudo em salas pequenas como a Galeria Zé dos Bois e a associação Bacalhoeiro, em Lisboa.
Voltemos ao soundcheck. Já passam das oito da noite, a fome começa a apertar. O palco é um rebuliço de sons desordenados, obrigando Ernesto a gritar, de vez em quando, “pouco barulho!”. Nuno Rebelo (ex-Mler Ife Dada, hoje livre improvisador com múltiplos projectos) usa um arco para tocar furtivamente no violoncelo de Guilherme Rodrigues, que retribui o gesto na guitarra eléctrica de Rebelo. Ernesto ri-se: “Podem fazer esse número no concerto”. Nuno e Guilherme cumpriram a sugestão.
“Há uma certa desresponsabilização que é boa se utilizada no sentido de aligeirar”, conta um muito sorridente Nuno Rebelo. Apesar de já estar habituado a tocar na VGO, nunca sabe o nome de toda a gente. “A par disso há uma grande alegria, um prazer muito lúdico de tocar com outros músicos”.
Ao contrário de muita da dita “música contemporânea”, a música da VGO não é sisuda. É lúdica, plena de jogos, é orgia de mil músicas em suspensão, a engolirem-se mais ou menos anarquicamente. Ernesto é o simpático condutor que pede, através de gestos comuns, a determinados músicos que toquem, vigorosa ou calmamente.
Mas os membros são sempre livres de desobedecer. “Se me ignoram, normalmente é mau porque a música fica caótica. Mas já aconteceu. E às vezes sou eu próprio que deixo as coisas fluírem naturalmente, e depois, quando acho que é necessário intervir para dar alguma forma ou para controlar um certo caos, intervenho. Mas tudo isto é muito subjectivo: o que é caótico para mim pode não ser para ti”.
Orquestra elástica
“O que é especial na VGO é o seu carácter não efémero”, diz João Henriques, um dos “infiltrados do Norte” nesta encarnação de uma orquestra “em que há 33 pessoas a criar” e não a seguir uma partitura.
Oriundos de São Francisco, Estados Unidos, John Gruntfest (saxofone alto) e Megan Bierman (saxofone tenor) são outros dos infiltrados da noite. Inicialmente não estavam no cardápio, mas a natureza elástica da orquestra presta-se a estas surpresas. “Viemos fazer um documentário sobre a nossa banda, chamada The Greatest Little Big Band in the History of the Megaverse, em Mértola”, dizem os dois experimentados músicos. Gruntfest (pinta de jazzman veterano, casaco, boné e sapatilhas) dirigiu, entre 1979 e 1982, a Free Music Festival Orchestra de São Francisco, com a qual a VGO partilha semelhanças.
“É bom estarmos em Portugal e ter esta comunidade de músicos a acolher-nos”, confessa Bierman, para quem a integração num grupo tão grande de músicos desconhecidos é simples.
Eduardo Chagas, músico e crítico de jazz, começou a participar na Orquestra de Geometria Variável a convite de Ernesto, depois de ter visto e elogiado concertos da mesma no seu blogue “Jazz e Arredores”. A orquestra “está a funcionar como um viveiro para outros projectos. Recebe e dá”, observa este observador atento da cena experimental portuguesa.
Também Chiara Picotto, italiana fixada em Lisboa, passou de ouvinte da VGO a membro da orquestra. “Foge um bocado à definição de música enquanto coisa melodiosa, com estrutura. O que me fascina é a liberdade. É música elástica, os limites não estão traçados”, dizia antes do soundcheck.
Quatro gerações
Durante o concerto, Chiara cantou o que pareciam ser sons pré-linguagem, enredados no jardim de sons que a orquestra ia produzindo. Outros avistamentos: Ernesto a comandar os naipes (metais, electrónica, percussões, etc.) de um lado para o outro pelo palco e a tocar violino a espaços; um grupo de computadores Apple a gerar electrónica subliminar durante quase todo o concerto, com direito a uma passagem só para eles, sem outros instrumentos; Guilherme Rodrigues a retirar sons da madeira do violoncelo; um saxofonista a transformar-se, por momentos, num cantor; o neozelandês Damian Stewart a fotografar a orquestra onde veio parar por acaso; Abdul Moimême a tocar o seu saxofone tenor fora do palco; crescendos alienígenas em que jazz, electrónica e outras músicas se misturam e digladiam e momentos de quase silêncio ou de destaque de um só instrumento.
Antes, o saxofonista soprano e flautista Jorge Lampreia explicava-nos a “riqueza desta música”: “É música-música”, que vale mais pela “capacidade de audição enquanto se está a tocar” do que pela “técnica dos instrumentistas”. Ernesto Rodrigues: “Isso é uma coisa que está patente nestas novas músicas. É mais importante saber estar do que ser virtuoso. Conheço muita gente que toca muito bem mas se vier tocar aqui só faz asneiras. Há que saber estar, saber gerir o silêncio com o fortíssimo, com os pianos, com os “tuttis”, os solos, as dinâmicas, os andamentos, os timbres – a música é feita disso. A riqueza tímbrica e tudo o resto é o que mais me seduz numa orquestra. É uma panóplia infindável”.
A existência de uma entidade como a VGO assinala a boa saúde das músicas experimentais em Portugal, nomeadamente em Lisboa. A cidade tem vindo a fortalecer um circuito de locais, agentes e público interessado, sendo habitualmente assinalada a força do experimentalismo português por oposição ao da vizinha Espanha. “Stills”, o disco da VGO, é o centésimo da Creative Sources, editora fundada em 1999 por Ernesto Rodrigues que é presença habitual nas páginas de crítica de publicações especializadas como a “The Wire”.
A orquestra é sintoma deste estado de coisas e potencia colaborações entre diferentes gerações de músicos. Já há quatro gerações de experimentalistas em Portugal (Ernesto é da segunda) e todas já participaram na VGO, assinala o mentor do projecto.
Guilherme Rodrigues, filho de Ernesto, é o rosto dessa quarta geração. Não é habitual aos 19 anos um rapaz estar a improvisar com músicos tão reconhecidos, mas Guilherme começou ainda mais novo. Tinha 11 anos quando entrou num disco, improvisando com o pai e José Oliveira. “Desde que nasci, que ‘levo’ com isto em casa”, conta. “Estudo no Conservatório e toco na Orquestra Sinfónica Juvenil, mas gosto muito mais de improvisação livre”. Ernesto conclui: “Esta linguagem é universal. Os arquétipos são os mesmos”.
Pedro Rios (Jornal Público)










Photo: Ernesto Rodrigues with composer Nikolaus Gerszewski and Ensemble


Foi um dos concertos que mais gostei de "ouver" e registar. Foi aquele em que mais fotos tirei - de facto, acho que nunca desliguei a máquina (mesmo correndo o risco de ficar sem pilhas) e devo ter visto o concerto mais através da máquina que directamente pelos meus olhos !!! As fotos poderão ser semelhantes, mas reportam sempre diferentes tempos e sons que fazem a grandeza do concerto e da Orquestra. Foi também o concerto mais homogéneo e em que o Ernesto se apresentou mais dirigente, condutor e mentor do melhor colectivo global que a orquestra já formou. Enfim... a VGO surpreende-nos sempre, e é essa sua capacidade que faz com que eu procure não falhar um concerto, mesmo nos dias em que velhas glórias da música e do jazz também se encontrem a tocar em Lisboa, como ontem aconteceu!!! Um abraço a todos e VGO Sempre! Rui Portugal (Jazz e Arredores)














Photo: Ernesto Rodrigues with José Oliveira, Nuno Torres and Guilherme Rodrigues


[...] a VGO de Ernesto Rodrigues encerrou em grande nível o primeiro dia do Out.Fest 07. Enchendo o palco do Auditório Municipal com quase trinta músicos, a Variable Geometry Orchestra mostrou uma notória evolução relativamente às suas primeiras actuações. Mesmo com um número imenso de músicos a trabalhar em simultâneo, Ernesto já se conseguiu impor como maestro e consegue controlar melhor a massa sonora gerada pelo grupo. Já não se trata propriamente de “caos sonoro”, a música aqui produzida – mescla de instrumentação acústica e material electrónico – reproduz algumas características individuais dos diversos músicos intervenientes (Sei Miguel, Rafael Toral, João Pedro Viegas, António Chaparreiro, Nuno Torres, Adriana Sá, Abdul Moimême, o próprio Ernesto Rodrigues, etc.) e consegue ser, em simultâneo, um veículo único de unidade sonora plena de energia. Nuno Catarino (Bodyspace)















Photo: Ernesto Rodrigues with Variable Geometry Orchestra


A abertura do Sources Fest ficou a cargo do agrupamento formado por Ernesto Rodrigues (viola), Guilherme Rodrigues (violoncelo, rádios), Nuno Torres (saxofone alto) e José Oliveira (percussão). Enquadrável no âmbito das incursões pela estética “reducionista” que E. Rodrigues tem encetado ao longo dos últimos anos, deste concerto importa sublinhar duas ideias fundamentais. Em primeiro lugar, a sensação de que a sua música caminha lentamente para a incorporação de elementos estruturais e composicionais, não só por se ter sentido uma sintonia perfeita entre os membros do quarteto, como também pela relativa facilidade com que se puderam identificar distintos períodos de pesquisa textural. Em segundo lugar, ressalva-se o facto de a recente inclusão de Nuno Torres no ensemble de E. Rodrigues se ter revelado uma escolha frutífera e particularmente acertada, ele que se adaptou de forma irrepreensível à linha estética que Rodrigues procura veicular neste projecto. João Aleluia (Jazz.pt)















Photo: Ernesto Rodrigues with Alípio C Neto and Luciano Vaz


A primeira parte serviu para o grupo tomar a temperatura à sala, cheia com um público heterogéneo, entre curiosos, desatentos, palradores compulsivos, e uma larga maioria de público disponível para se deixar desafiar pelo desconhecido. Ajustados os níveis, feito o aquecimento e preparados os processos, o quarteto arrancou então para uma segunda parte a todos os títulos memorável. Desde logo, pela empática associação entre o trio formado por Ernesto Rodrigues (violino), Manuel Mota (guitarra eléctrica) e José Oliveira (percussão), três dos mais destacados improvisadores da cena lusa, com muitos anos de experiência nos mais diversos cruzamentos e intersecções. À partida o desafio era deveras interessante, posto que Rodrigues, Mota e Oliveira são uma fórmula testada, capaz de nos surpreender pela qualidade e diversidade da oferta estética em cada momento. Ao trio base inicialmente previsto e anunciado, juntou-se o saxofonista alto Nuno Torres. Excelente ideia, aditar este reforço de última hora. Porque o som de Torres tem propriedades acústicas que casam na perfeição com as demais. Daí a naturalidade com que entrou no fluxo, acrescentando um som de saxofone moderno e personalizado.
Para o Jazz às 5.ªs do CCB, a proposta do trio passado a quarteto foi pensada e mentalmente estruturada como uma sessão de improvisação livre, desenvolvida em várias direcções, reconhecíveis como pertencentes às estéticas da livre-improvisação europeia, da música contemporânea de base escrita, e do free jazz moderno, neste último caso, com poucos pontos de contacto com o vocabulário do free clássico, mesmo quando, numa passagem ou outra, se sentisse a presença espiritual do Revolutionary Ensemble, de Jerome Cooper, Leroy Jenkins e Sirone.
Iniciado o andamento, ressaltou de imediato a afinada disciplina de grupo, combinada com a mais ampla liberdade de comunicação, sem quebras ou hesitações na gestão das dinâmicas. Momentos meditativos, subidas graduais de intensidade, trajectórias de crescente tensão, controlo e explosão multicolor.
Nas duas peças de fundo, e a nível individual, destaque para a percussão assertiva e multicolor de José Oliveira, a abrir espaços para as entradas do violino de Ernesto Rodrigues, com passagens expressivas por toda a gama de registos, secundado pela guitarra pós-Bailey, electrizante, esfalfada e virada do avesso, de Manuel Mota, e pela sobriedade rica e elegante do som do saxofone alto de Nuno Torres, que, conhecendo embora as invenções de Evan Parker e John Butcher, segue a sua própria via de afirmação por paragens onde também se pode encontrar o saxofonista francês Heddy Boubaker, por exemplo.
Mais importante que pôr em evidência o trabalho individual de cada improvisador, importa referir que o concerto valeu sobretudo pelo trabalho de escultura sonora. Nessa medida, assinale-se a forma empática como os quatro músicos souberam ouvir-se, reagir e interagir. Musicalidade e controle da energia articulados modo a fazer funcionar o processo criativo enquanto actividade de grupo – o fulcro da música improvisada moderna.
Eduardo Chagas (Jazz e Arredores)

















Photo: Ernesto Rodrigues with Guilherme Rodrigues and Jão Macedo


Creative Sources nous a habitué à l’innovation expérimentale et aux changements d’habitude d’écoute parfois difficilement appréciable par le commun des mortels, même le plus entiché, vu leur production pléthorique. En quelques années, le catalogue de CS a atteint le numéro 091 (Keune/ Schneider/Kramer : The short and the long of it). Plusieurs de leurs parutions toutes récentes font appel à des artistes plus « réussisseurs » ou « substantiels » qu’«essayeurs » ou « radicalement espacés » voire « tentativistes de l’extrême». Ces appréciations dépendent de vos expériences, bien entendu ! [...] En conclusion, Creative Sources, une structure autofinancée par les artistes publiés, maintient le cap de la découverte et de l’innovation. Mais ses récentes productions se focalisent nettement moins sur le formalisme quasi conceptuel (abrupt pour certains) et la nouveauté per se, les enregistrements solo et l’électronique, et plus sur l’exigence organique d’improvisateurs expérimentés et une véritable diversité. Une belle réussite. Jean-Michel Van Schouwburg













Photo: Ernesto Rodrigues with Variable Geometry Orchestra



Com formação clássica e a influência da escrita musical contemporânea, em especial a de Emmanuel Nunes, mas actividade na área da livre-improvisação e do chamado “near silence”, a grande paixão do violinista e violista Ernesto Rodrigues é claramente o free jazz. [...] Rui Eduardo Paes


















Photo: Ernesto Rodrigues with Aaron González



Em seis anos de actividade editorial a Creative Sources Recordings afirmou-se no plano internacional como uma das mais relevantes etiquetas especializadas nas novas tendências de improvisação. Com mais de oitenta discos editados até ao presente momento, a editora fundada e dirigida por Ernesto Rodrigues vem documentando de forma surpreendentemente activa as movimentações nas músicas improvisadas neste início de século XXI, tendo-se focalizado principalmente em redor da estética reducionista (mas não só). Para além de ter registado trabalhos dos mais importantes exploradores nacionais (Margarida Garcia, Rafael Toral, Sei Miguel), fazem parte do catálogo da editora nomes de referência como Tetuzi Akiyama, Günter Müller, Oren Marshall, Rhodri Davies, Axel Dörner, Mazen Kerbaj, Dan Warburton, entre vários outros. No entanto, a maior fatia de contributo criativo para o catálogo da editora vem do seu próprio líder, Ernesto. Participante em quinze álbuns, o violinista explora em cada situação diferentes instrumentações, registos e colaboradores, apresentando em cada disco um trabalho fresco, ímpar, irrepetível. Estudioso do compositor Emmanuel Nunes, Rodrigues advoga que a composição está presente no seu trabalho, mesmo que seja trabalhada em tempo real e não seja evidente. Sobre este facto, afirmou numa entrevista ao Bodyspace: “Mesmo quando se improvisa, há uma gestão/estruturação de materiais contínua em tempo real e a minha formação passa sem dúvida pela absorção de inúmeros conceitos e métodos que intrinsecamente se ligam à sua fortíssima personalidade musical e humana.” A exploração textural e sónica que Ernesto Rodrigues faz da viola (ou, ocasionalmente, violino) é apenas uma extensão do seu trabalho musical, que tem na interacção talvez a parcela mais importante. Estes sete registos aqui referenciados documentam a fase mais recente da produção de Ernesto Rodrigues (2005/2006) e são uma mostra irrefutável de dinâmica e fulgor criativo. [...] Nuno Catarino (Bodyspace)














Photo: Ernesto Rodrigues with Nuno Torres and Miguel Bernardo




Geometrias regulares e irregulares na forma e no conteúdo, fluidez, densidade, respiração, elementos visuais associados à progressão sónica, reinvenção acústica espácio-temporal. Vocabulário e pensamento musical colectivo feitos de muitas linguagens convergentes que brotam duma multitude de fontes. Os sinais instigam os acontecimentos, a trip de energia. Naipe de cordas, secções de sopros e de percussão, electrónica de gratinados e ondas oscilantes, pulsão jazz – tudo revisto e aumentado no que ao potencial de contraste tímbrico e textural diz respeito. Música que, a um tempo, transporta em si um exercício de memória, repristinação de vários segmentos do passado – do seu próprio passado – e de página em branco, o momento anterior à consciência.Tribalismo e tentação afro, o drone que arrepia, sons que nascem e se desvanecem sem se saber de onde nem por onde, interpenetração de motivos, nuance, tensão rítmica, explosão, policromia, climax, som total. Um mundo de sonoridades inquietantes que instauram a perplexidade. Outro concerto da Variable Geometry Orchestra, sinfonia para improvisadores envolvidos no processo de ouvir e transformar. Eduardo Chagas (Jazz e Arredores)
















Photo: Ernesto Rodrigues with Hans W. Koch and Bettina Wenzel


VGO The hot and unforgiving Sahara wind decided to answer the calls of Nirankar Khalsa and the Sudani gang by paying us a visit! The result was a thermometer rise way above the 90’s. On this occasion the VGO went to play in the black curtain clad room of the BOMBA SUICIDA where the many fans, scattered throughout the floor, did little to alleviate the heat surge. The band was closing the night so it had a scarce 30 min. to show what it was worth. The music sounds just like the thick atmosphere in which it was played: densely textured and hot! Ibson Barreto da Silva

Uma editora na alvorada do século XXI












Photo: Ernesto Rodrigues with Alfredo Costa Monteiro, Margarida Garcia and Guilherme Rodrigues




Indicam as estatísticas que Portugal não é um país de empreendedores.
Por empreendedorismo entende-se a capacidade para empreender, para tomar iniciativas, e entre os aspectos característicos de uma cultura empreendedora contam-se a auto-confiança, a aptidão para criar, e a propensão para assumir riscos e inovar.
Se de tais asserções são carentes uma diversidade de sectores de actividade em Portugal, o mesmo dificilmente poderá ser defensável no campo do jazz e das músicas criativas neste país produzidas. Com efeito, e sem nos referirmos propriamente à praxis do jazz e da improvisação, que são, por natureza, práticas musicais que incitam ao risco e à inovação, o surgimento de um conjunto de projectos editoriais “made in Portugal” neste início de século tem sido um fenómeno que coloca Portugal – pelo menos neste domínio – a par dos países mais empreendedores da Europa.
Criada em 2001 por iniciativa do violinista e improvisador Ernesto Rodrigues, a Creative Sources Recordings é, no plano contemporâneo, uma das mais importantes editoras portuguesas.
A principal motivação que subjazeu à criação da Creative Sources foi a necessidade premente de um conjunto de músicos estabelecidos em Lisboa, na altura praticamente marginalizados e esquecidos pela indústria discográfica nacional, em divulgar o trabalho que até aí vinham desenvolvendo.
A verdade é que, dois anos volvidos sobre o arranque do projecto, o âmbito de edição da editora se alargou, extravasando pela primeira vez limites territoriais: primeiro com o disco “Ura” do trio de origem catalã I Treni Inerti, e depois com a edição do projecto No Furniture dos alemães Axel Dörner, Kai Fagaschinski e Boris Baltschun.
Tendo a Creative Sources surgido em 2001, portanto no auge da ortodoxia da “nova” forma de música improvisada e semi-improvisada que no final do século XX havia emergido em algumas capitais europeias – e à qual se tem atribuído as designações de “reducionismo”, “lowercase” e “near silence” – não foi de estranhar que tivesse adoptado alguns projectos internacionais conotáveis com esta “nova” vertente estética.
No entanto, o que poderia numa fase inicial parecer a edição episódica de projectos de músicos estrangeiros, veio pelo contrário a revelar-se um eixo fundamental na estratégia editorial da Creative Sources, e um “driver” essencial para a sua afirmação internacional.
A pouco e pouco, as mais destacadas cenas do chamado reducionismo – Londres, Berlim, Tóquio e Viena – foram encontrando representação na editora, mas também se abriram portas a outros centros menos divulgados, como Paris, Barcelona ou Beirute.
Será contudo necessário sublinhar que a Creative Sources é uma editora que não se circunscreve a um balizamento estético rigoroso e inexoravelmente predefinido. Com efeito, para além de uma sequência de projectos mais ou menos alinhados com as tendências reducionistas acima mencionadas, a editora tem também abraçado algum jazz de inclinação free (atente-se nos trabalhos de Stefan Keune, Lars Scherzberg ou Nush Werchowska), algumas realizações na área da improvisação electroacústica (veja-se, por exemplo, os discos de Günter Muller, Jason Kahn ou Grundik Kasyansky), assim como uma série de outros músicos cujas idiossincrasias não os permitem associar a escolas ou a correntes específicas.
Hoje em dia, e seis anos após a edição do seu primeiro opus, a Creative Sources continua a afirmar-se como um projecto editorial sólido, consolidado e auto-suficiente. E, gozando de um estatuto que a permite considerar como o barómetro das novas tendências da música improvisada, a Creative Sources salienta-se ainda das demais editoras da especialidade por ser uma das mais prolíficas da actualidade, contabilizando-se no seu catálogo, em Dezembro de 2006, o impressionante número de 80 títulos publicados.
Depois desta breve panorâmica sobre a editora, passamos de seguida a uma caracterização mais aprofundada das suas propostas, tendo em atenção àquelas que consideramos ser as suas principais linhas de força: trabalhos de músicos portugueses (1), projectos de músicos estrangeiros (2) e solos instrumentais (3).
Devido a restrições de espaço, apenas nos debruçaremos neste número sobre o primeiro eixo de actividade da Creative Sources – trabalhos de músicos portugueses – deixando a análise dos eixos remanescentes para a próxima edição da Jazz.pt.Trabalhos de músicos portugueses – a afirmação de uma cena musical nacional
A vida da Creative Sources é indissociável do trajecto artístico que o seu criador, Ernesto Rodrigues, tem vindo a construir desde o momento em que teve a iniciativa de avançar com este projecto editorial. Efectivamente, ao participar em 15 dos 80 títulos já editados, não será um exagero se dissermos que os seus discos constituem a espinha dorsal da editora.
Abarcando um período de aproximadamente seis anos (de 2000 a 2006) – e pese o facto de se tratar de um espaço de tempo relativamente curto para que a sua evolução estética e criativa possa ser segmentada em etapas claras e inequívocas – podem destacar-se dois momentos fundamentais no percurso de Ernesto Rodrigues.
O primeiro corresponde ao final do ano de 2001, um período de mês e meio de elevada actividade e que conduziu à gravação de 3 CDs. Este “momento” marca a transição de uma abordagem fortemente enraizada na “escola” inglesa de improvisação para uma postura demarcadamente focada no silêncio, austeridade e contenção do discurso musical.
O segundo “momento” corresponde ao ano de 2004, o ano da maturidade e da definitiva emancipação estilística de Ernesto Rodrigues, e que também se consubstanciou na fase de maior fertilidade discográfica do músico – datam deste ano cinco dos quinze trabalhos da sua autoria editados pela Creative Sources.
Tendo presente a importância destes momentos na actividade de Ernesto Rodrigues, arriscamos nas linhas que se seguem uma panorâmica sobre o seu percurso, socorrendo-nos para esse efeito de alguns exemplos musicais.
Gravados com sensivelmente um ano de diferença, em 2000 e 2001 respectivamente, os dois primeiros trabalhos de Ernesto Rodrigues na Creative Sources – Multiples e 23 Exposures – caracterizam-se pela influência da “insect music” desenvolvida pela primeiríssima geração de improvisadores britânicos, muito em particular o Spontaneous Music Ensemble, mas também Evan Parker e Derek Bailey.
Ambos os discos partilham, assim, de um conjunto de linhas orientadoras comuns: a configuração em trio, a preferência pela miniatura e o desenrolar da acção musical pautada por uma abordagem reactiva, convulsa e fragmentária.
É também de ressalvar o facto de a formação de Multiples apresentar dois dos mais assíduos colaboradores de Ernesto Rodrigues: o percussionista José Oliveira e o seu filho Guilherme Rodrigues, destacando-se neste último, que à data da gravação contava apenas 12 anos de idade, a forma notável como se identifica com o espírito da criação musical espontânea.
Um mês decorrido sobre o registo de 23 Exposures, seguir-se-iam as gravações de dois trabalhos muito importantes na discografia de Ernesto Rodrigues – Sudden Music e Ficta. Entramos no “momento” de transição a que nos referíamos acima. O silêncio começa a ser integrado de forma deliberada e consciente na música de Rodrigues e seus pares. Peças de curta duração cedem lugar a extensas e espaçosas composições espontâneas. Sobre-estimulação, verticalidade e abundância discursiva deixam de se manifestar, soçobrando perante a primazia da tranquilidade, horizontalidade e de longos momentos no limiar do audível.
Se Sudden Music corresponde na perfeição a estas especificidades, Ficta vai um pouco mais além: crepitante e intenso, este é um trabalho de natureza mais corpórea, e onde é conseguido um melhor balanço entre som e a (quase) ausência do mesmo.
Em ambos os registos, José Oliveira revela-se um interveniente de seminal preponderância. Libertando-se de um “modus operandi” de inspiração eminentemente britânica (Roger Turner, Tony Oxley e o próprio John Stevens), Oliveira surge aqui mais próximo de percussionistas como Lê Quan Ninh ou Garth Powell, denotando uma aproximação cintilante e cristalina aos objectos percussivos.
É notório nestes dois discos (e nos que se lhes seguiram) um certo alinhamento com as práticas reducionistas que atingiam por esta altura na Europa o ponto de maior estoicismo e abstinência. No entanto, não deve ser descurada a enorme importância da música erudita do século XX no trabalho de Ernesto Rodrigues, sobretudo dos compositores da escola de Nova-Iorque (muito em particular John Cage e Morton Feldman) mas também de criadores europeus como György Ligeti ou Helmut Lachenmann.
Os dois anos seguintes, 2002 e 2003, iriam ser de consolidação das experimentações estéticas empreendidas em Sudden Music e Ficta. Da actividade neste biénio resultaram quatro discos: Assemblage, Cesura, Contre-Plongée e Dorsal. Desta sequência de trabalhos, o destaque vai, sem quaisquer dúvidas, para Cesura, um quarteto constituído por Ernesto e Guilherme Rodrigues, Alfredo Costa Monteiro e Margarida Garcia.
Das inúmeras interpretações que se podem fazer do título desta obra – que pressupõe a existência de um corte, de uma cisão com alguma coisa – a mais evidente é a exclusão do até aí alter-ego de Ernesto Rodrigues, o percussionista José Oliveira. Implicação: se o distanciamento perante as noções convencionais de melodia e harmonia era já um dado adquirido, consubstanciou-se agora a ruptura com qualquer veleidade rítmica que pudesse ainda subsistir. Composições de configuração anamórfica, sons que aparecem e se desvanecem num átimo, trepidações e rumores – são estas algumas das propriedades predominantes neste trabalho. Cesura resulta assim num álbum mais telúrico e sombrio que qualquer dos anteriores, e é também aquele onde o exercício de uma abordagem textural e reducionista atinge o zénite.
2004 viria a ser um ano charneira no percurso de Ernesto Rodrigues. Este ano assinala o momento da definitiva autonomização do músico em relação às determinações estéticas de correntes musicais específicas (sejam estas os “princípios” de acção-reacção da escola britânica ou o near-silence radical da cena “onkyo” japonesa), o que se traduziu, fundamentalmente, na exploração de um campo de possibilidades mais alargado e no desenvolvimento de um corpus de trabalhos de maior diversidade estilística.
O aumento das colaborações de Ernesto Rodrigues com músicos estrangeiros e a reincorporação de dispositivos electrónicos nas suas formações – cuja ausência remontava à gravação de Self Eater and Drinker, com Jorge Valente, em 1999 – muito contribuíram para o enformar deste rumo evolutivo.
É importante sublinhar que nas duas primeiras gravações de 2004, Kreis e Kinetics, a adopção da electrónica não se materializou numa ruptura com os predicados dos trabalhos anteriores.
Carlos Santos, cuja participação na Creative Sources se resumia até aí ao grafismo dos discos da editora, foi quem se encarregou, nestas duas obras, da componente electroacústica. Sobretudo em Kinetics, um quinteto com Ernesto e Guilherme Rodrigues, Oren Marshall, José Oliveira e o próprio Carlos Santos, sai reforçada essa ideia de continuidade com os trabalhos precedentes. Sente-se mesmo um certo construtivismo na abordagem conjunta, um doseamento equilibrado de esforços e sensibilidades. Carlos Santos, pelas linhas subtis e subliminares que tece a partir do seu laptop, é um elemento primordial na ligação entre os vários músicos, também ele contribuindo de forma exímia na elaboração do assemblage tímbrico de aparência cuidadosa que caracteriza este Kinetics.
Ainda a propósito de Carlos Santos, é preciso não esquecer o trabalho ímpar que este tem vindo a desempenhar enquanto responsável pelo design gráfico da Creative Sources, uma correspondência feliz entre som e imagem que marca indelevelmente a editora desde o seu primeiro opus.
Os dois registos que se seguiram, Diafon e Undecided (A Family Affair), diferem substancialmente dos anteriores. A principal novidade aqui consiste na introdução, pelo menos de uma forma mais aberta e acentuada, de princípios de distorção, ruído e volume.
Diafon, um trio com Ernesto Rodrigues, A. Costa Monteiro e Barry Weisblat, é, até à data, o disco mais “anti-académico” de Rodrigues. Para este efeito, e por oposição aos caminhos explorados em Kreis e Kinetics, a manipulação electrónica preconizada por Barry Weisblat soa impura e imperfeita, conferindo ao espaço acústico uma densidade abrupta e dilacerante.
Embora num plano distinto, a mesma postura parece estar presente em Undecided. Neste disco, onde os Rodrigues se juntam a Christine e Sharif Sehnaoui, há efectivamente uma aproximação às concepções de “noise”, sincretismo instrumental e distorção da matéria sonora que encontramos em Diafon. Pleno de intensidade e entrega, sente-se a omnipresença de uma força inquietante e opressora, que pode inclusivamente ser entendida como uma premonição das fatalidades bélicas que viriam a assolar o país de onde são originários os Sehnaouis, o Líbano...
A concluir este périplo pela discografia de Ernesto Rodrigues, passamos em seguida às gravações de data mais recente, Oranges e Drain, ambas registadas no ano de 2006.
Oranges é um quarteto que para além dos habituais Rodrigues conta nas suas fileiras com o libanês Bechir Saade e o americano radicado em Madrid Wade Matthews.
Contrariamente à ideia que o título poderá deixar transparecer, este é o álbum mais ecléctico e colorido do violinista, facto este que não será alheio aos diferentes backgrounds musicais e culturais que aqui se confrontam e entrecruzam. Não obstante esta heterogeneidade de referências, há uma intersubjectividade notável entre os músicos, uma compreensão mútua das oposições e correspondências entre os respectivos instrumentos, em suma, uma identificação estética permanente e fecunda.
Finalizamos então com Drain, um trio em que o violinista francês Mathieu Werchowski se junta a Ernesto e Guilherme Rodrigues. Este trio de cordas é, em certa medida, um dos trabalhos mais surpreendentes de Rodrigues. Abundante em intersecções, deslizamentos e corridas ziguezagueantes, a exuberância discursiva que encontramos neste registo traz à memória a “insect music” dos seus primeiros trabalhos. Contudo, o aspecto que maior admiração poderá causar é o facto de Ernesto Rodrigues, um músico anti-virtuosístico por natureza, fazer aqui a demonstração mais categórica da sua superlativa técnica instrumental (ainda que seja justo reconhecer o mesmo em relação a Werchowski).
Podemos dizer, à guisa de balanço, que três características fundamentais sobressaem dos seis anos de actividade de Ernesto Rodrigues aqui recenseados – adaptabilidade, solidez e capacidade em surpreender e inovar. No entanto, o maior mérito que se lhe deve reconhecer, e que encontra um natural reflexo nos discos acima analisados, é o importantíssimo papel que este tem desempenhado na dinamização da cena improvisada nacional, seja pela estimulação da comunidade de músicos local, seja por via das inúmeras colaborações com músicos estrangeiros.
João Aleluia (Jazz.pt)